segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Se separados, somos fortes; juntos, somos invencíveis!

O dia em que fomos provocados a compor um jingle. Só vocês, mesmo...

Destino deve ser uma palavra que inventaram para explicar, rapidamente, certos episódios da nossa vida, não é? Sim... Deve ser...
Então, acho que é sobre destino que escreverei, hoje!

Entrei no Programa de Pós-graduação em Contabilidade da UFBA decidida a desenvolver minha pesquisa na área de Educação. Especialmente, eu queria escrever sobre saberes docentes, formação de professores, desenvolvimento de tecnologias pedagógicas. Eu sou contadora, mas já tinha muito claro, em mente, que não escreveria sobre os temas mainstream da minha área. Sabendo disso, eu já estava, “marotamente”, de olho na grade da nossa “vizinha”, FACED... Diante da possibilidade de pagar disciplinas em programas distintos, eu pensei: “me aguardem, danadas, ainda pego vocês!
Pois bem, em 2019.1, chegou a hora do desespero: “chorar no pé do caboclo” (nesse caso, minha orientadora...hahaha), para que ela aprovasse eu pagar 2 das 3 optativas na FACED:

- Beth, mas duas??!?!
- Siiiimmm, “pufavô”!!

Eu já havia virado do avesso as listas de oferta dos 3 anos anteriores e pensei: “preciso achar uma ementa que justifique eu querer me “enfiar” lá na FACED em 70% das minhas optativas! Aí, leio a ementa da EDC A33 – Educação, Comunicação e Tecnologias. Um parêntese: por limitações de ordem pedagógica, precisei reformular minha pesquisa para uma investigação quantitativa, estudando as modalidades EAD e Presencial em Contabilidade e a disciplina era perfeita para “convencer” minha orientadora. Consegui!
Psicótica que sou, corri no SIGAA, antes de começarem as aulas, para conferir quem eram os matriculados e para descobrir o quão perdida eu ficaria... hahaha. Quase todos do PGEDU! Eu, típica “pinto no lixo” e “vida loka”, tive dois pensamentos:

- Meu Deus, socorro, vou ficar mega perdida nessa turma!
- Caracaaaaaaaaaaa, maluco! Vou aprender pra caraca! Me belisca! Adeeeeeuuuuusssss, monotoniaaaa!

Mal podia esperar pela primeira quarta-feira!! E ela chegou! Só sabia o nome da professora: Maria Helena Bonilla. Dela, como pessoa, sabia pouco; já havia lido textos, mas não era capaz de imaginar sua fisionomia. Até então, era uma pesquisadora distante, que, talvez, nunca imaginei conhecer.
Apresentações iniciais... Muitas formações diferentes e eu fui me acalmando, descobrindo que não estaria tãooo deslocada assim. Eis que Bonilla apresenta a disciplina e a metodologia... Uma das propostas de avaliação era a manutenção desse blog que vocês leem...rsrs, e as postagens deveriam ser “reações” às leituras previamente disponibilizadas; a primeira semana foi o saudoso Bauman. O primeiro comentário com tom orientador que ela deu eu nunca vou esquecer: “gentê (o sotaque rio grandense que ainda ouço, escrevendo esse texto), mas prestem a atenção: eu não quero um resumo de Bauman, não, porque já o conheço de cabo a rabo (puxando o erre igual Faustão); quero um texto seu, entenderam?? Eu quero que vocês postem a reação que Bauman provocou em vocês!! Pelamordedeus, não me vem com resumo do livro!”

Amigos, aqui, eu já estava era no céu!! Saltitando por dentro e quase soltando um: “tô no paraíso, bitches!”, pela janela, para meuzamigue da FCC (que eu amo também, tá? Rsrs). Pensei: “cara, essa professora é doidona! É aqui que eu quero ficar! Hahahaha”.  Minha reação a Bauman (relato que vocês podem relembrar aqui) foi um texto tão louco que, se fosse outra docente, talvez ele nunca viesse a público, mas veio; porque era ela.

Ética Hacker e Ciberativismo.
Assim foram todas as nossas quartas-feiras! Uma “overdose” de conhecimento, a cada leitura, de trocas impagáveis, com pessoas fora de série e cuja ausência me deixava triste, pensando: “Puxa, perdi a discussão de hoje! Como deve ter sido? Perdi mais uma tarde de conhecimento!”
Bonilla e turma EDC A33 2019.1, caso eu ainda não tenha dito, saibam que vocês foram a melhor escolha que fiz nesse semestre e, com certeza, contribuíram para que essa trajetória valha a pena. Não consigo mensurar o quão cheia de tudo eu saí dessa disciplina e o quão diferente estou, depois de vocês. Obrigada por serem um bálsamo para minhas inquietações de pós-graduanda e por me permitirem aprender tanto com vocês! Perdoe-me a “cozinha”, por não me adaptar ao barulho, mas vocês foram a alegria, em vários momentos!

Enfim, ainda mantendo o nível de doideira bem elevado, propus um desafio a mim mesma: citar todos aqui, com suas respectivas características, sem “pescar” da lista do sistema!

Turma EDC A33 2019.1.

Íris, como já comentei: sua serenidade, amizade e conversas acalmavam minha alma, toda semana. Obrigada pela força que transmitia e pela companhia, fugindo do ar...rsrs. Ízis, risada fácil e solta, admiro sua garra e o carinho que demonstra pela docência. Obrigada por compartilhar suas histórias. Neinha, estou ouvindo sua voz, bem agora; que calma, meus amigos, que calma! Você é linda! Camila, timbre forte, alto e seguro. Lembro da primeira vez que falou. Sucesso na correria da “ponte aérea” Feira-SSA...rsrs. Tilson, que, no primeiro dia de aula, me deixou mais à vontade, ao se assumir amante das pesquisas quantitativas, e, depois, revelou mais em comum comigo do que imaginávamos. Receba meu abraço, meu compa! David, ahhhh, David, um lorde costarriquenho que levarei sempre no coração; sua dancinha foi um marco da indústria do entretenimento...hahaha. Paty, adorava ouvir seus relatos de ativismo e te admirava mais a cada semana. Obrigada pelo carinho e parceria no seminário; foi uma honra. Lucila, poucas e assertivas intervenções; desejo-te muita força e sucesso. Rafael, eu ficava sempre ansiosa pelas miniaulas de história; sua ponderação na fala encantava. Carla, sentia falta quando você não ia. Não tive a oportunidade de dizer, mas ficava encantada com suas contribuições e aprendia sempre mais um pouco, sempre. Dayane, também estou ouvindo você falar, nesse momento. Seu instinto família é admirável e sua pureza de alma, idem. Já andou de metrô sozinha? Ansiosa por esse relato! Hahaha. Darlaine, uma expressão te define, pra mim: ativismo soteropolitano! Uma maravilhosa representação do nosso país, Salvador (visualizando seus gestos..rs)! Lílian, trouxe as narrativas midiáticas e me fez encantar pelo assunto. Sempre serena e contundente nas intervenções! Danilo, também ouvindo você, agora...rsrs. A descontração mora em você e a provocação, também. Parabéns por dar voz, ter voz e ser voz. Glauber, companheiro de área, que me fez não sentir tão perdida...rs. Seja luz na nossa área! Jaque, sempre de sorriso aberto, na chegada às aulas e as mãos abertas, na mesa, atraindo nossa atenção ao expor seus pontos...rsrs. Johnatan (tome a palavraaa..rs), calmo, quieto, sempre olhando ambos os lados da mesa e levantando a mão para as intervenções. Adriana, pouco a ouvi, sempre quietinha... Ei, desejo sorte nessa missão mãe, viu?

Curiosidade: a ordem não é de prioridade. É uma questão espacial, mesmo... Fui mencionando ao passo que me lembrava dos lugares na mesa... hahahaha.

E prof. Bonilla, como falei, pessoalmente, a tristeza é pelo término da disciplina, mas a imensa alegria por ter acontecido. Agradeço por cada quarta-feira, por cada orientação e por cada “puxão de orelha”, para que pensássemos além; além até de nós mesmos! Te admiro muito! Obrigada pelo acolhimento e por tudo isso que provocou em nós!

sábado, 29 de junho de 2019

O que esperar da "nova escola"?


Global world telecommunication network connected around planet Earth, concept about internet and worldwide communication technology for finance, blockchain cryptocurrency or IoT, image from NASA

Para que você compreenda melhor o que virá a seguir, caro leitor, esse parágrafo o ajudará, para seguirmos em mais um bate-papo:
Na semana em que iríamos discutir a relação com as TIC nos diversos estágios da vida e o direito à comunicação, as leituras enveredaram para uma abordagem que muito me atrai e comunicavam-se, absurdamente. Mas, em especial, destacarei o texto O Marco Civil da Internet - desafios para a educação (PRETTO e BONILLA, 2014), pois, além do tom provocativo, as lembranças para as quais o texto me remeteu me balançaram bastante. O texto traz um histórico das redes, da internet, regulação e, claro, abordagens legais, no sentido do direito à comunicação e ao acesso à internet.
Mas meu estalo de hoje foi graças à última parte, na qual os autores discutem as potencialidades e os desafios para a educação. Minha história envolve três realidades escolares: uma em nível médio (particular), a segunda, técnico (formação gratuita) e a última, médio/técnico (pública estadual). Guardem essa informação!

Equipe 1º lugar Copa Mundial de Robótica - EUA, 2018
Durante um tempo, ministrei aulas no SENAI, situado na cidade de Barreiras, extremo oeste da Bahia e região conhecida por ser o segundo maior celeiro agrícola do país. Pois bem... Dentro do mesmo complexo do Sistema Fieb, contava-se com vários prédios (IEL, SESI, SENAI, etc). No prédio ao lado de onde eu ministrava, funcionava a escola de ensino médio do SESI. Ambos são conhecidos pela excelência no ensino e desenvolvem uma série de projetos de inovação tecnológica cujo reconhecimento já ultrapassou as fronteiras do país (estudantes do SESI dominaram o maior torneio de Robótica do mundo, em 2018, levando o 1 e o 3 lugares. Veja mais aqui). Lá, os alunos têm a criatividade estimulada e desenvolvem programas, protótipos e robôs, em laboratórios cuja estrutura é bem completa. A robótica educacional está no SESI há mais de 10 anos. O desenvolvimento é estimulado para as necessidades do mercado, especialmente, e eles criam soluções dignas dos vários prêmios que já receberam.

Equipe 3º lugar Copa Mundial de Robótica - EUA, 2018
Apesar de ser professora do SENAI (ensino técnico), eu ficava sabendo dos projetos dos meninos do SESI; em parte por buscar informação, em parte pelo tom meio “invejoso” com o qual meus alunos me contavam sobre o mais novo lançamento. Sabe inveja que adolescente tem do “primo rico”? Essa mesma... Mas por que isso? Veja bem, apesar da estrutura interessante, muitos dos meus alunos faziam parte do programa de formação gratuita do Sistema Fieb, que oferece cursos (muito bons) para jovens de 14 a 21 anos. Por ser gratuita, essa modalidade não tem acesso a toooooodaaaaaa a estrutura dos laboratórios, entendem? Naturalmente, pela idade, eles se sentiam preteridos e adorariam “mexer com robôs”, do mesmo jeito que os alunos do SESI.

Site Flash ad Network: a rapidez do seu anúncio aqui!
Infelizmente, não era possível. Era outra proposta... Nunca entramos no laboratório do SESI. Mas vocês pensam que alguém apaga a vontade de criar que essa galera tem? Nunca! Eles se viram como podem. Um dos alunos, Gustavo, aprendeu fazer negócios online, sozinho; empreendia e criava; descobria aplicativos mais facilmente do que meu marido descobre lanche na geladeira. Outro, Werliarlison, sonhava em trabalhar na Sony ou no Vale do Silício; tinha um raciocínio lógico absurdo; fera no xadrez, metódico e tímido. E a Flávia? Mergulhou no desafio de ser youtuber e eu a chamava de “rabugenta digital” (A Flávia é essa de casaco, ao lado, e o Werliarlison é o de casaco, na foto abaixo).

P-cure: a natureza em prol da vida.
No final do bimestre, propus um desafio (disciplina Gestão Organizacional): criarem, em equipes, 4 empresas, sendo os segmentos de indústria, comércio, serviços e agronegócios. Deveria ter:
- Nome
- Slogan
- Logomarca
- Diretrizes (missão, visão, valores, políticas de qualidade)
- Estrutura organizacional (departamentalização, organograma)
- Elaboração do Regimento Interno

Drogaria Leggall: Venha! Menor preço garantido.
Mal sabia eu o que receberia... A equipe de serviços criou um site para anúncios, completo! Com todas as funcionalidades, acessos, formulários, e-mail de contato e uscambau! A equipe do agronegócio? Propôs o cultivo de plantas que tivessem poder cicatrizante para ajudar vítimas de queimaduras e localizou todas as possíveis culturas, pesquisou solo adequado, condições para cultivo e tudo o necessário para a viabilidade. A indústria propôs uma fábrica de chocolates (com site ativo e tudo) e o Comércio propôs uma drogaria a preços populares. Os projetos deveriam ficar prontos em 2 meses e cabe destacar que eu não intervi em nada na concepção da ideia; apenas fiz o acompanhamento, dando o suporte nas questões técnicas e pedagógicas. Toda a criatividade foi deles. Até as marcas eles desenharam e vetorizaram, brother!

Chocolates Adrifel: ser feliz não custa caro.
Essa foi apenas uma das turmas que me surpreendeu, pois teve a turma que montou um protótipo de câmera filmadora, usando apenas peças de papelão; além da outra turma que montou uma operação de fast food completa, com receitas originais e sanduíche artesanal, em 2 horas, dentro da sala de aula. Essas eu deixarei para um próximo relato... rsrs.

Mas, como eu sinalizei lá em cima, falta o caso da escola pública estadual. Aqui, eu não tenho vivência. O que sei vem dos relatos do meu marido (professor da rede estadual) e dos informes aos quais tenho acesso. Lendo o texto, eu lembrei do que vem ocorrendo na rede de ensino médio/técnico, em cujas escolas os alunos e professores vêm lutando contra toda a falta de estrutura/incentivo/recursos e realizado projetos maravilhosos, como o estudo de programação, facilitado através da  Placa Arduíno, usada no letramento digital de estudantes. Através do estudo de programação e inteligência artificial, surgiram projetos para redução da poluição luminosa, no município de Teixeira de Freitas, ou o Minitrator Agrofamília, destinado ao pequeno produtor. Esses e outros projetos podem ser consultados aqui e fazem parte do Ciência na Escola.

Tailan e Douglas. CETEP Bacia do Rio Grande:
aproveitamento do caroço de manga.
Anualmente, as escolas estaduais realizam Feiras de Ciências, onde expõem suas criações e soluções para as comunidades e o planeta. Uma equipe do CETEP de Barreiras-BA, entre outras soluções, descobriu a utilidade do caroço de manga, para a produção de farinha, óleo e manteiga. E uma equipe da cidade de Valente-BA criou o Smartcam: Dispositivo de segurança para ultrapassagem, conquistando o Certificado de Incentivo à Pesquisa Tecnológica e Científica da Associação Brasileira de Incentivo Tecnológico e Científico (Abritec), na 16ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace)em 2018, onde outras escolas estaduais também foram premiadas.

Desvendando as regiões da Bahia através da criação de mangás
Projeto do Colégio Edvaldo Brandão Correia, de Salvador.
Tem muita coisa acontecendo... Mas esse cenário ainda pode melhorar (precisa, aliás!). Esses exemplos são frutos de muito esforço, por parte de professores, alunos e equipe pedagógica, que superam dificuldades diárias (alguns alunos fazem a única refeição do dia na escola, por exemplo) e criam soluções para o mundo! As tecnologias trouxeram uma infinidade de novas possibilidades, abriram novos “mundos” e, aliadas à criatividade desses jovens, têm mudado a vida de muita gente!

Diverse kindergarten students learning energy producer from solar windmill in science class
Lembram que pedi para vocês guardarem a informação sobre as 3 realidades? Havia um motivo: o foco da criação. O SESI é uma escola particular, na qual os alunos são estimulados a desenvolverem soluções para o mercado. Já nas realidades dos alunos da modalidade gratuita do SENAI e os da rede pública estadual, eles passam por um processo criativo mais livre e, quase sempre, desenvolvem soluções para as comunidades, região, planeta!
Ou seja, caro leitor, o capitalismo pode até mandar em muita coisa, mas, na cabeça desses jovens, ainda não!


*Todas as imagens são de domínio público e as fotos em sala de aula são autorais e com autorização para registro.

sábado, 15 de junho de 2019

"Meu caminho pelo mundo eu mesma traço"?*

Telefone Celular, Smartphone, 3D, Manipulação, Tela


Eis mais uma inquietação...

Seria essa a ideia das “reações” propostas pela professora Bonilla? Cá estou eu, novamente, reagindo a essas provocações, depois de um tempo de dormência...


Ciberespaço, Cyber, Tecnologia, Internet, Digital
Ciberespaço. Territorialização. Des-re-territorializar... Qual é, finalmente, o conceito de território, em pleno 2019? Muitos, meu caro... Muitos... André Lemos já provocava isso, em 2006, em uma leitura incômoda e inquietante, que surpreende por sua atemporalidade. A partir das leituras envolvendo redes e mobilidade, voltei-me ao meu celular e comecei a questionar como e se eu estou reterritorializando, de quais redes faço parte...

Meu celular me controla! (minha mente alertou, no meio da leitura...)

Esse é o fato! Doloroso, mas real! Ele me guia, não eu a ele. Mas por quê? Acaso consigo eu instalar um simples aplicativo, para uso básico, sem fornecer permissão de acesso à minha localização, câmera, microfone e lista de contatos? Não! Pergunto-me: “mas que uso será necessário da minha câmera?” Para mim, nenhum; para “eles”, todos! Eles sabem onde estive, do que gosto, registram por onde passei e, com isso, projetam por onde passarei. Sabem antes de mim sobre as minhas intenções de reterritorialização. Sendo assim, quem é o responsável pela construção dos meus territórios, físicos, sociais e culturais?

Nesse momento, pauso e respiro... Everything is under control (insira aqui um desejo absurdo de que isso fosse verdade...)

Navegação, Gps, Localização, Google, Mapas, Mapa
Ok, respiração sob controle, lembro-me dos projetos de mapeamento de estabelecimentos, já presentes em vários lugares do mundo e em franca expansão no Brasil. Sob uma proposta interessante, de maior comodidade na localização de pontos turísticos, oferta de produtos e serviços, a novidade atrai elogios, arranca comemorações e cai no gosto dos turistas e desbravadores (não tão desbravadores assim). A partir de um clique no celular, um mundo de possibilidades se abre pra mim; uma rede interconectada, que me traz recomendações de restaurantes baseadas em meus gostos culinários e... Mas, espera, eu não informei meus gostos culinários ainda! Quem são vocês, gênios maravilhosos, que me brindam com tanta facilidade e me presenteiam com novos territórios instantaneamente, poupando-me do trabalho de fazer, eu mesma, esse “desenho”.

Ah, lembrei... São eles, os algoritmos...
Olá, tudo bem? Havia esquecido de vocês... Como pude? (insira aqui o emoticom com a mão na cara...)

Respiro, novamente, e lembro de um exemplo que, para mim, sintetiza perfeitamente a problemática da atuação em rede e a mobilidade: o aplicativo Waze. Sim, ele!! Para quem não conhece, uma breve descrição, aqui.
O Waze pode ser descrito como um aplicativo de mobilidade, que tem a proposta do funcionamento colaborativo, seja a partir do traçado das melhores rotas ou através do oferecimento de caronas. Motoristas de todo o Brasil desenham rotas, diariamente, e estas são atualizadas em tempo real. Quem é adepto ao aplicativo, pode ter uma nova rota traçada para cada dia da semana, basta que surja uma opção julgada mais rápida e barata pela rede de motoristas e, voi là, ela aparece na sua tela e pode desviá-lo da originalmente traçada.

Pensando no Waze, surgiu uma inquietação: sim, eu comemoro a cada vez em que a corrida do Uber dá mais barato, pelo fato de estarmos usando o Waze e não o aplicativo padrão; mas essa é uma rede que, apesar de trazer benefícios diários para muitos, alimenta altos lucros monetários apenas para um (já viram os produtos que a Waze oferece?).

Santa mãezinha, eu nunca encerrei um texto com tantas dúvidas, como agora... (insira aqui uma perfeita caricatura desesperada...)

*Título faz um trocadilho com a letra Aquele Abraço, de Gilberto Gil.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Quando as políticas estão distantes...

Resultado de imagem para politicas publicas na educação
Minha primeira experiência com a oferta de graduação, estruturada em formato EaD, foi numa instituição à qual chamarei de ABC, em 2017, ministrando aulas nos cursos de bacharelado em Ciências Contábeis e Pedagogia, além de uma turma de pós-graduação Interdisciplinar. De início, algumas questões já me incomodavam bastante, na ABC... Aspectos direcionais e pedagógicos eram motivos de constante discussão entre mim e alguns outros colegas, cujas críticas eram semelhantes.

O formato já era, a meu ver, uma afronta à formação que eu havia mentalizado, como sendo a mais adequada aos futuros profissionais que eu estaria ajudando a formar. As aulas presenciais eram mensais e por disciplina, sendo que nos reuníamos com as turmas durante o sábado e o domingo e, a cada final de semana, eu tentava focar esse pensamento: “esta será a melhor aula que eu posso entregar e eles serão os melhores profissionais, em suas áreas”.


Os materiais que eram enviados, previamente, pela coordenação, aos alunos e professores (incompletos, em todas as ocasiões) eram, na maioria das vezes, deixados de lado, nas minhas aulas, e partíamos para “beber das fontes”, em cada disciplina. Sem peso algum na consciência, disponibilizava os arquivos de livros de que dispunha e tentávamos esticar aqueles finais de semana ao máximo, colocando todo o nosso empenho (meu e dos alunos) em fazer daquele encontro produtivo e uma porta para continuar na caminhada, rumo à formação, tentando vencer as barreiras já, naturalmente, impostas. Assim acontecia. Foram 4 disciplinas na turma de Contábeis e 2 em duas turmas de Pedagogia. Especialmente, com a turma de Contábeis, fomos criando uma relação de confiança, regada a discussões técnicas e aprofundando o máximo que aqueles 1 dia e meio permitiam.

Ao relacionarmos a realidade daquelas turmas da Instituição ABC com as questões de políticas públicas e sistema de ensino, percebemos o quão altas são essas barreiras, que esses alunos estão transpondo, até hoje. A Instituição atua em uma cidade cuja oferta de ensino superior, presencial, é inexistente, mesmo por instituições privadas, o que leva a maioria dos graduandos aos formatos EaD ou ao enfrentamento de viagens de ida e volta, até a cidade mais próxima, que oferte. Viagens essas, inclusive, que só são possíveis quando há oferta de transporte pela prefeitura; algo nem sempre realidade. Novamente, perguntamos por onde andam as políticas públicas...

Resultado de imagem para superaçãoMas, felizmente, nem tudo é lamentação, nesse meu breve relato. Como disse, das 4 turmas pelas quais passei, a de Contábeis resultou em maior contato e trocas (por motivos óbvios). Essa turma, que começou com cerca de 25 matriculados e, na reta final do curso, chegou a, apenas 7 (sete), me trazia orgulho, a cada conquista. Cada vez que traziam uma situação prática e relacionavam com o que víamos em sala de aula e cada vez que me “provocavam”, por e-mail ou Whatsapp, com uma dúvida, gerada a partir da leitura mais aprofundada dos conteúdos. Entre esses 7 alunos, está Maurício*, um aluno já maduro, um pouco mais velho que eu e entre os mais aplicados da sala, além de ser o que mais se utilizava dos meus canais de contato...rsrs. Apesar de orientação expressa da Instituição ABC para que os alunos não nos “importunassem” após a finalização das disciplinas, pois, segundo posicionamento da coordenação, nosso vínculo duraria, apenas, o final de semana de encontros, eu não sou prestadora de serviços. Sou professora. Escolhi isso e, junto, escolhi o vínculo com meus alunos, pelo tempo que eles precisem.

Imagem relacionadaPois... Maurício usava desse vínculo “sem dó” (ainda bem...rsrs). Além de focado em sala, questionador e extremamente dedicado, frequentemente me contatava para dúvidas, experiências e etc. O mais recente desses contatos foi para dividir comigo a notícia da aprovação no exame do Conselho Federal de Contabilidade, etapa indispensável para o exercício da profissão. Num exame, cujo índice de aprovação, em 2018 foi de, aproximadamente, 30%, Maurício estava lá. Estudante da modalidade EaD, numa localidade distante dos grandes centros, mas com uma persistência que não vê nada, nem ninguém, à sua frente, que o impeça de seguir seu sonho e trilhar na carreira que tanto ama: Contador. Seu caminho será brilhante, Maurício!

Entretanto, devemos refletir no sentido de que Maurício é uma exceção. Inspirador, mas ainda exceção. Nem todos conseguem transformar as dificuldades em força para seguir em frente e nós, como educadores, não podemos esperar que todos os alunos precisem passar por tudo o que Maurício passou para alcançarem a educação, direito constitucionalmente garantido.

Sigo na torcida, pelo caminho de todos os meus alunos e agradeço ao Maurício pela bela história, que ainda trará muitas conquistas.

*Maurício é o nome real e o mesmo autorizou sua menção, nesta postagem.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Um quadro a quantas mãos?

Imagem relacionada
Ao deparar-me com os termos “colaboração” e “convergência”, minha mente começou a elucubrar ideias, que foram alimentadas por picos de reação, durante a leitura dos textos que trataram de ambos. Mas algo me incomodava, porque havia sido o meu primeiro pensamento, ainda antes da leitura. Sabe quando alguém menciona um termo e você, automaticamente, o associa a algo? Foi isso que aconteceu... Mas, confesso, achei inadequado escrever sobre isso e mergulhei na leitura, esperando o que ela me diria.

Mas a ideia continuava lá, martelando. Quase dizendo: “escreve sobre mim, vai...”.

Antes de convidá-lo a esta leitura, deixe-me, apresentar os conceitos nos quais me amparo, para produzir essa reação, que cheguei a pensar ser uma divagação. Veja o conceito de “colaboração online, aqui e “convergência digital”, aqui. Sigamos...

Mergulhando nas leituras sobre colaboração online, fui remetida às campanhas de financiamento das quais participei, à polêmica da plataforma Sci Hub, à novidade da Rede de Colaboração, inserida na plataforma Lattes, aos esforços em redes sociais para viabilizar projetos... Passeei. Muito. Mas a bendita “ideia” inicial não dissipava... Então, é sobre ela que escrevo.

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Deixo claro que não é a visão “macro” do que seja colaboração, mas amparei-me, primordialmente, em Foucault e sua Microfísica do Poder, me acalmando, ao querer escrever sobre algo tão “micro”. Para Foucault, as relações de poder não se manifestavam, apenas, em sua forma macro ou institucional, mas em pequenas ações cotidianas, periféricas, que muito revelavam. Apropriando-me desse conceito, percebi que não precisei recorrer a grandes ações de colaboração online, se poderia recorrer ao meu Whatsapp. Sim!

Meu exemplo de rede de colaboração estava ali! Especificamente, em um grupo, convenientemente, denominado Estado da Arte.

O grupo surgiu a partir de uma inquietação, na turma do mestrado da Faculdade de Ciências Contábeis-UFBA. Particularmente, eu me sentia incomodada pela falta de interação entre a turma, sempre em um silêncio de ideias enlouquecedor. Pensava: não é assim que visualizo a Academia. Por que ninguém compartilha projetos? Por que não propomos pesquisas? Por que, nem mesmo, discutimos durante as aulas? Estou no lugar errado!

Ao interagir com Jorge, Thiago e Sylvia, veio o alento: nem tudo está perdido! Por iniciativa do primeiro, surgiu o Estado da Arte. A partir dali, construiríamos um círculo colaborativo que já rendeu os primeiros frutos: ideias para submissão de artigos em parceria (inclusive, com mapeamento de periódicos e eventos), criação de projetos de pesquisa, apoio profissional, pessoal e acadêmico, compartilhamento de conteúdo didático e discussões das mais variadas, que têm ampliado a visão acadêmica, além de proporcionar substancial aproveitamento dos encontros presenciais.
Durante as conversas no grupo, vimos percebendo o quanto podemos avançar, o quanto é possível construir algo maior do que nós mesmos, a partir de ideias que surgem, onde quer que estejamos, e que, automaticamente, ganham a rede do aplicativo e já começam a amadurecer, ali, naquela “mesa redonda” conectada.

O Estado da Arte tem rendido frutos. Tem sido também um local online de amadurecimento e reflexão, derrubando o mito de que a produção intelectual é isolada e mostrando que a colaboração pode, sim, fomentar a criatividade. Tem sido um oxigênio, em tempos em que nos sufocamos com ideias nunca externadas.

Compartilho um pequeno trecho (abaixo, em amarelo) do professor Marcos Ramon Gomes Ferreira, doutor em Comunicação, pela UNB, citando Clay Shirky e sua obra A Cultura da Participação: criatividade e generosidade no mundo conectado, que pode ser lida, gratuitamente, graças a um processo colaborativo, aqui.

Imagem relacionada
Nesse sentido, o que a colaboração online permite é uma potencialização de algo que já ocorre no cotidiano das pessoas, permitindo que elas colaborem ainda mais e de forma mais recorrente e consciente. Contudo, apesar do exemplo mencionado, existe outra percepção, bem recorrente no senso comum, sobre o funcionamento do trabalho, especialmente daquele essencialmente intelectual. De acordo com essa visão o trabalho científico assim como o trabalho artístico envolvem apenas tarefas solitárias, onde prevalece unicamente a genialidade do indivíduo. Esse conceito de gênio, em seu aspecto mais romântico, considerando os cientistas e artistas como pessoas predestinadas a verem o mundo de uma maneira que ninguém mais vê, é ainda disseminado no imaginário popular. De acordo com Shirky, podemos ver os rastros da colaboração em tudo que quisermos:

Michelangelo colocou assistentes para pintar parte do teto da capela Sistina. Thomas Edison, que registrou mais de mil patentes em seu nome, administrava uma equipe de cerca de vinte pessoas. Até a escrita de um livro, um empreendimento notoriamente solitário, envolve o trabalho de preparadores de originais, editores e designers (...) (SHIRKY, 2012, p.19).

Esses indícios de que a colaboração está por toda parte se contrapõem ao modelo que mencionamos anteriormente, do trabalho solitário e isolado na produção de conhecimento. E se por tanto tempo mantivemos essa mesma compreensão das coisas, o que estaria mudando agora, para que passássemos a valorizar o trabalho intelectual coletivo?

E você, a quantas mãos faz arte?

segunda-feira, 8 de abril de 2019

"Tenho medo da TV"


A maioria dos brasileiros que, hoje, tem cerca de 20 anos – ou menos – lembra-se dos intermináveis 4 dias que durou o sequestro de Eloá Cristina, adolescente de 15 anos, mantida refém pelo ex-namorado, de 22 anos, no que ficou conhecido como o “mais longo sequestro em cárcere privado járegistrado pela polícia do estado brasileiro de São Paulo, que adquiriu granderepercussão nacional e internacional”.

Eloá estava em sua casa, na cidade de Santo André, estudando, com amigos de classe, quando o ex-namorado, inconformado com o término do relacionamento invadiu a residência e, após liberar dois amigos de Eloá, manteve a ex-namorada e sua amiga, Nayara, reféns, com ameaças de morte, durante dias, em uma interminável agonia, para familiares, amigos e, como não, telespectadores.

Encaixo-me no grupo de telespectadores que, à época, estava focado em todos os detalhes do caso, durante a sua duração. Como muitos, tive a esperança de que a menina sairia viva, assim como a amiga, e que o criminoso seria conduzido a pagar pelos seus atos. Mas confesso que, em alguns momentos, pensava que o desfecho seria tal qual o do sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro, que também acompanhei detalhadamente, pela TV, e, devido a uma ação desastrosa da polícia, culminou na morte da professora Geísa Gonçalves.

Enquanto acompanhava esses dois episódios, em nenhum momento refleti sobre o papel da mídia em ambas as situações. Muito menos sobre “narrativas midiáticas”. Apesar de me considerar uma pessoa crítica quanto ao poderio midiático, isso não me passou pela cabeça, enquanto consumia o produto gerado pelo “jornalismo sangrento”, que dava inúmeras tônicas ao mesmo caso, a depender do seu alvo, potencial de audiência, corpo jornalístico ou, mesmo, viés ideológico. Pois bem, eis que, ao ler o que Leandro Lage traz, em seu capítulo intitulado “Notas sobre narrativa e acontecimento jornalístico” (uma ideia do que o autor se refere pode ser lida aqui), o que vem à mente? O caso Eloá!!

Há algumas semanas, estava assistindo a um documentário divulgado no aniversário de dez anos da morte da adolescente (13/10/2018). Fui levada a relembrar o caso de Eloá, devido a uma discussão acerca da narrativa com a qual foi conduzido o caso do massacre na escola de Suzano-SP. Em comum, os dois casos tinham os diversos posicionamentos adotados pela mídia brasileira e, mais ainda, a postura idêntica que os veículos adotaram quanto à entronização dos autores – um, postumamente; o outro, em vida.

O algoz de Eloá foi entronizado em vida, por grande parte da mídia brasileira, que, ao trazer uma narrativa que garantisse picos de audiência, deixou em segundo plano o futuro da adolescente e sua amiga. O caso de Santo André teve uma série de acontecimentos desastrosos, sobretudo, os institucionais:

Fonte: http://revistaepoca.globo.com
1.      Despreparo policial, ao permitir a reentrada da amiga, Nayara, após a mesma ter sido liberada pelo sequestrador, colocando, claramente, a vida da refém – que chegou a ser baleada, no rosto – em risco;
2.      Atuação governamental pífia, em um episódio que se arrastou por inacreditáveis 4 dias;
3.      Mais importante, a espetacularização midiática, cuja preocupação era a cobertura, em tempo real, do caso, com disputas entre qual emissora conseguiria a primeira entrevista exclusiva, o primeiro clique do sequestrador, o melhor ângulo do sangue derramado.

Ao relembrar o caso, é possível identificar, claramente, que cada emissora de televisão, cada revista, jornal adotou uma postura diferente, ao narrar o caso. Alguns, como a Revista Época, claramente atribuíam, apenas, à polícia e ao sequestrador a responsabilidade pelo desfecho do caso. A apresentadora Sônia Abrão e sua equipe foram um pouco mais longe, em sua irresponsabilidade “jornalística”: entrevistaram, ao vivo, o autor e a vítima, por telefone, durante o sequestro. Sim, passados 2 dias do início do episódio, a apresentadora interferiu no caso – sob autorização policial, aliás – e exibiu em seu programa uma exclusiva entrevista. Já o apresentador José Luiz Datena, da emissora concorrente, se referia ao sequestrador como um “rapaz apaixonado e desiludido”, ao vivo, durante o seu programa.

Hoje, dez anos depois, ao refletir sobre narrativas midiáticas, sobre o que é um acontecimento, sobre o papel do jornalismo e sobre o nosso papel, enquanto telespectadores – por vezes, de um circo de horrores –, penso em como estaria a Eloá, caso tivesse sobrevivido? Como seria a vida dela, aos 25 anos, se seu maior sofrimento tivesse recebido outra narrativa?

Quantas Eloás, quantas Geísas serão necessárias para que repensemos a postura jornalística brasileira? É preciso, de fato, que a palavra “acontecimento” continue tendo conotação superlativa?

segunda-feira, 25 de março de 2019

Cidadão “Quem”?


O ano era 2011. Eu, estreante no Facebook, adesão à qual resisti ~ quase ~ bravamente, navegava pela time line, quando, em postagem de um amigo, vi algo que me chamou à atenção: era um chamado a uma “marcha”, que se dizia “contra a corrupção”. Interessada por pautas políticas desde quando ainda nem podia participar delas, cliquei, para maiores informações. A realização era creditada ao Dia do Basta à Corrupção, movimento que se denominava como “nacional, pacífico e apartidário”. Vi que fora realizado em várias cidades e Salvador estava entre elas. Aquilo me interessou... Porém, essa minha resistência em aderir ao Facebook teve um preço: minha conta foi aberta em maio de 2011 e a marcha havia sido em 21 de abril. Que pena! Mas fui lendo e, para minha surpresa, o movimento contava com datas fixas do evento, sempre em abril, setembro e dezembro.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Marcha convocada em 2011, contra o projeto da Usina de Belo Monte.
Ao ler mais sobre o Dia do Basta, através de seu website, blog e página do próprio Facebook, inexplicavelmente, me vi parte daquilo, ao conhecer as principais reivindicações do movimento, que eram, especialmente: Voto aberto Parlamentar, Corrupção para Crime Hediondo, Fim do Foro Privilegiado e 10% do PIB para a Educação. Senti já estando em um dos eventos, colaborando com o movimento e, finalmente, tendo uma esperança de uma participação política fora do status quo. Passei a fazer parte da comunidade do Facebook, participar das discussões, arriscar sugestões e conhecer o processo de articulação do movimento que, pasmem, não tinha um líder. Claro que, como todo grupo, há pessoas que cuidam dos trâmites, que participam mais ativamente e auxiliam no processo de “fazer acontecer”. Esses eram denominados “coordenadores”, que se dividiam em local e nacional. Contudo, essa coordenação não agia nem permitia ser taxada como líder ou realizador. Todas as decisões eram postas na “mesa” do Facebook e, a partir de votos e sugestões, eram postas em prática. Eu me sentia na democracia ateniense, com milhares de ágoras em cada casa, clicando para confirmarem seus votos. O mais engraçado? O Facebook ainda nem contava com a opção de enquete, o que tornava o processo de apuração um “deus nos acuda”... hahahaha.

07/09/2012 - Eu, minha amiga e minha mãe.
Em 2012, consegui participar de uma das marchas, levando junto minha mãe e uma amiga. Parecia que eu sempre estive ali. Decorei todas as palavras de ordem, percorri todo o trajeto com o peito cheio de esperanças e, ao final, fiquei para a tradicional “reunião pós ato”. Ali, conheci, pessoalmente, os principais articuladores e suas ideologias. Pessoas simples, na maioria estudantes e/ou professores, que em comum tinham: o descontentamento político, vontade de mudança e inclinação à abnegação. Aquilo era o Dia do Basta. Presente em todos os estados do país, defendendo pautas que contemplavam, especialmente, educação, saúde e transparência e que se articulava através das redes sociais, contando com 3 marchas fixas anuais e atos para pautas urgentes, que ocorriam em vias movimentadas da cidade, mas sempre em feriados, para evitar transtornos aos trabalhadores, no trânsito. E aquela era a minha comunidade.

Passei a participar de todas as reuniões presenciais (com data e horário acordados via enquete) que se fizessem necessárias para a complementação da articulação realizada nas redes, apesar de 90% serem pelas plataformas online. Reuníamos em livrarias, praças, onde fosse viável. Algumas, mais movimentadas, cheias daqueles rostos já conhecidos pela foto do perfil do Facebook; outras, nem tanto, havendo casos com 3 pessoas.  Mas nunca deixaram de ocorrer. Da mesma forma, as marchas nunca foram suspensas por falta de público. Oscilavam das centenas aos casos em que poderíamos contar pouco mais de 10 pessoas, mas sempre estávamos lá. Sempre! Os gritos e palavras de ordem, bem como os cartazes, poderiam estar em menor tamanho, mas nunca deixaram de existir.

A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Emerson Aguiar, Elisabeth Araujo, Marcos Musse, Fabricio Moreira e Bianca Sales
A despedida de Fabricio (ao centro), então coordenador local, em 2013.
Até que, 2013, por um “convite” quase que imposto pelo grupo, assumi a coordenação local. Em uma das reuniões online rotineiras, a pauta era o apoio às manifestações pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo, no valor de 0,20. Aqui, cabe uma contextualização: muitos de nós, inclusive eu, estudante secundarista, à época, esteve presente na Revolta do Buzu (ato que contribuiu para a origem do Movimento Passe Livre), ocorrida em 2003, em Salvador, e que serviu de modelo para várias outras capitais, alcançando uma proporção inimaginável, tanto pela sua importância quanto pelas realizações alcançadas. À época, das 10 exigências do movimento, apenas uma não foi atendida (a revogação do aumento). Todas as demais foram; inclusive, a mais celebrada, que foi a meia-passagem para cursos de pós-graduação, de todos os tipos - vale a conferida nesse documentário.

A imagem pode conter: 8 pessoas
Início das manifestações de 2013.
Como precursores do Movimento Passe Livre, não podíamos negar apoio às pautas de São Paulo, especialmente porque nós, só nós, sabíamos que a reivindicação não era pelos “vinte centavos”. Aqui, fica clara a diferença entre fazer parte de uma comunidade e não ter ideia do que ela representa. Só quem pulsava na mesma vibração sabia que aqueles 0,20 eram a simbologia de algo maior, mais profundo; de uma ferida muito mais grave, da qual nunca nos curamos. No entanto, era difícil explicar às incessantes chamadas feitas, com maior frequência, pela Rede Globo, que não éramos “vândalos protestando por vinte centavos”. Éramos, inicialmente, estudantes e professores, mas, depois, pais, mães, trabalhadores, jovens, velhos, brancos, negros passando uma mensagem de que mobilidade era apenas uma das mazelas das quais sofríamos, porque o conjunto que nos movia consistia numa imensidão de pontos negligenciados pelo poder público. Infelizmente, durante muito tempo do movimento que durou, ativamente, cerca de 2 meses, foi assim que o Cidadão Kane tupiniquim imprimiu a imagem dos manifestantes - veja um exemplo, aqui, ao afirmarem ter havido invasão ao bloqueio policial.

Manifestantes correm da fumaça de bombas de gás lacrimogêneo em Salvador
Salvador - junho de 2013.
Felizmente, já podíamos contar com os “brotos” da imprensa independente, que se manifestava através das telas de celulares dos próprios manifestantes e, institucionalmente, se materializava em veículos como o Mídia Ninja que, a partir de colaboradores em todo o país, ajudou a dar notoriedade aos registros da real postura dos manifestantes e, especialmente, da truculência policial, que, em Salvador, teve seu ápice no dia 20 de junho, o fatídico dia em que nos atrevemos a desafiar a instituição futebolística.

Durante um dos jogos da Copa das Confederações, rumamos em direção à Fonte Nova. Nesse dia, percebemos a quem a polícia serve e o grau de importância que tem famílias morrendo em decorrência da acentuada corrupção nacional, no “país do futebol”. Do lado de cá, não havia armas, nem bombas. Lá? Emboscada. Ouvi de um policial, em um momento de aproximação: “eu apoio a luta de vocês, mas a maioria, não; a cavalaria está escondida, se afastem; é um conselho que dou a vocês”. Nós não ouvimos. Em segundos, bombas de gás, de efeito moral, vindas de todos os lados: do alto, de trás das árvores; um abate! Foi um dos piores dias das nossas vidas. Nessas horas, você se pergunta se não seria mais feliz estando lá dentro, torcendo na arquibancada - aqui, tem 40 segundos da pior tarde de junho.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Marcha do Dia do Basta - Belo Horizonte - 2012.
A resposta? Não, não seríamos! Porque é assim que exercemos a nossa cidadania. É dessa comunidade que fazemos parte. Assim que representamos e nos sentimos representados. Estamos em tudo e não pertencemos a nada, ao mesmo tempo. Somos uma ideia, um ideal, uma ideologia. O fato é que, o que ganhou o nome de Jornadas de Junho, para nós, cidadãos dessa pólis que se materializa atrás de cada tela de computador, consiste em muitos “junhos” e não começou, muito menos acabou, em 2013. Mesmo tendo sido usado como trampolim para vários grupos oportunistas, tais como Movimento Brasil Livre, Nas Ruas e Vem pra Rua, o “junho de 2013” tem um lugar muito especial no desenvolvimento da minha cidadania digital. Atualmente, faço parte da coordenação nacional do Dia do Basta, junto com a Laura Xavier e o Erik Chendo, fundadores do movimento; e, mesmo com demandas que me afastam da atuação mais presente, só tenho orgulho por ser uma espécie de “bit”, um grãozinho dessa grande comunidade de net-ativistas que, através das redes, busca melhorar o mundo.

O “gigante” não acordou, porque nunca estivemos dormindo.

E você, qual a sua cidadania?

> Veja uma chocante galeria de fotos, de junho de 2013, aqui.

domingo, 17 de março de 2019

"O pop não poupa ninguém!"

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Um ponto importante da cultura de massas é a ponte que esta constrói entre o popular e o erudito. Como assim? A penetração massiva reduz o abismo entre o intocável, reservado às elites, e o popular, avassalador, o produto da classe baixa, experimentado pelos 99% menos abastados. A cultura de massas traz uma nova matemática a essa relação.


Debaixo de forte crítica, pelo lado erudita da história, a Orquestra Sinfônica da Bahia - OSBA, desde a assunção do maestro Carlos Prazeres, tem adotado essa postura de “ponte”. Projetos audaciosos, como levar o grupo Olodum à sala principal do Teatro Castro Alves, ou atrever-se a deixar a indumentária sóbria de lado, assumindo as vestimentas dos personagens e adentrando o mundo da fantasia das trilhas sonoras de grandes nomes do cinema mundial, em seu lindo projeto, Cine Concerto, fazem parte de uma nova ideologia, adotada pela OSBA, de “popularizar a música clássica” e abrir as portas para que pessoas estranhas ao erudito o experimentem, mesmo que pela porta de entrada popular. Os concertos, outrora com público que estava longe de lotar os cerca de 1500 lugares da sala do TCA, passaram a demandar duas, três, até mesmo quatro apresentações extras. Todas esgotadas. O popular estava lá! Na casa do erudito e fazendo a festa! Eu, fã incondicional da OSBA, passei a encontrar amigos que nunca imaginaria estarem ali. Maravilha! Eles também descobriram o quão maravilhoso é isso aqui! E a música cumpriu seu papel, mais uma vez.

Mozart, inclusive, já derrubava a falácia de que era necessário preparo especial para ouvir música clássica ou o pertencimento a determinada classe, visto que suas composições alcançavam a realeza e a massa - indico um filme interessante sobre a vida do músico, aqui.
Nessa interconexão, constata-se a dificuldade, provocada por Santaella, em diferenciar o que se mantém clássico e o que já se rendeu às seduções populares. Ora, examinemos outras duas situações:
O cientista Stephen Hawking ao lado do ator Jim Parson em gravação de The Big Bang Theory - Imagens: Divulgação/CBS
Quantos, hoje, conhecem o importante físico Stephen Hawking? Na verdade, a pergunta correta é: quantos ficaram conhecendo o físico através de outras provocações, que não a sua obra? Eu ajudo: acaso todos os que, atualmente, não são mais estranhos a esse nome, o eram antes da série de TV The Big Bang Theory? Ou, mais recentemente, o eram antes do filme A Teoria de Tudo? Você não precisa nem se cobrar por entender a teoria dos buracos negros (o próprio autor já revisou inúmeras vezes suas teorias), mas, certamente, já sabe que o cientista tem uma memorável contribuição nesse estudo, que iniciou-se séculos atrás, e é possível que tenha despertado a vontade de ler um de seus livros ou conhecer mais sobre ele, se não pelo interesse científico, pela curiosidade que sua condição física desperta.
Ainda na ciência, Alan Turing poderia ser apenas mais um nome estranho, antes do sucesso do cinema O Jogo da Imitação, que se propôs (reservadas todas as licenças poéticas) a contar como o brilhante matemático britânico se tornou um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial, aplicando seus conhecimentos lógico-matemáticos na decodificação de códigos alemães e contribuindo para o fim da guerra. Hoje, Turing não é mais um nome restrito à Academia ou às rodas de intelectuais de exatas. Seu nome está nas piadas, em trocadilhos que tratam de quebra de códigos e, especialmente, em debates e discussões que abordam o caráter nocivo que o preconceito contra LGBTs carrega.

Resultado de imagem para ALAN TURING
Quanto a mim, prefiro o TCA cheio do que um espetáculo frio, direcionado a poltronas vazias, inanimadas, inalcançadas pelo poder da música. Prefiro Hawking e Turin sentados nas mesas de bar, nas conversas informais, do que presos às páginas fechadas na biblioteca. Se a cultura das mídias for capaz de manter essas articulações fluidas, já me parece muito válido! A única preocupação reside em não tornar a condição física de Hawking e a homossexualidade de Turim superiores às suas contribuições para a ciência e o mundo.
Nisso, "o pop não poupa ninguém", devamos confessar.

Camaleões mercadológicos



“Se não pega a Globo, não pega mais nada!”
Minha geração acompanhou a difusão da expressão “mídia de massa” e a frase que iniciou esse texto traz uma elucidação que, talvez, meus pais e avós nunca tenham experimentado: a constatação empírica de que uma localidade na qual o sinal da Rede Globo de Televisão estivesse ruim seria condenada ao limbo televisivo nos dizia muito mais do que um chuvisco na tela e a necessidade de colocar Bombril na antena... O fato de o sinal da gigante Globo chegar até os locais mais inóspitos do país cumpre um papel importante na chamada “mídia massiva”, que é a abrangência. Nisso, o poderoso grupo de comunicação fez um papel formidável, enquanto seus concorrentes amargavam números pífios de audiência e popularidade.

Popularidade essa bem expressa nas novelas, que se tornavam parte das famílias, em pautas de refeições e, pasmem-se, na tomada de decisão se um parente merecia nosso apreço.
“É fã de Nazaré Tedesco? Deve ser psicopata!”
“Não gostou de ‘A Viagem’? Como pode ser tão insensível?”

A penetração da Rede Globo mudou nossa forma de ver a vida e, consequentemente, mudou a própria vida, hábitos, posturas, pontos de vista. As novelas já eram realidade no rádio, mas nada como o impacto que o visual trazia. Nada como a mistura de cores e o balanço das telas; nada como o bailar dos personagens, dentro daquele frame frenético.

Não havia mais confiança na escolha individual para roupas, corte de cabelo...
“Se ninguém na TV usa, devo estar muito errada em querer fios longos e assimétricos.”
“Põe um ‘Chanel’ aqui, por favor!”


Construímos, dessa forma, uma “geração Globo”, mantida intacta por décadas e que ainda está longe de ser substancialmente abalada, sobretudo na geração anterior à Y, os chamados baby boomers.
Quando fomos tomados pelo que Lucia Santaella chama de “cultura das mídias”, um alerta vermelho surgiu entre os players dominantes dos veículos de massa, incluindo grupos de rádio, TV, jornal. A receptividade passiva e o quantitativo de alcance estariam ameaçados pelo poder de escolha e pela fluidez com a qual os conteúdos perpassam entre os variados veículos e formatos de conteúdo? A Globo, novamente, não se conformou em perder a sua hegemonia e, como “camaleoa mercadológica” que é, rapidamente incorporou o conceito de “crosmedia”, já sinalizado como tendência, antes da própria Santaella. As possibilidades se misturavam na tela da TV, numa interconexão formidável, dando “poder de escolha” ao telespectador, desde programas memoráveis como Você Decide, Linha Direta, Criança Esperança e, mais recentemente, Big Brother Brasil.

Você pensava: “estou fazendo a Globo”. Confesse, você, talvez, ainda pensa assim, em cada paredão dos eliminados. Não se culpe, essa é a intenção. E é genuíno da sua parte, aplaudir, a cada semana, os conteúdos abordados pelo revolucionário, vitaminado, baphônico Amor & Sexo. “A Globo está de parabéns!”, você deve pensar... De fato, está. Adaptabilidade assim é para poucos. A Fernanda Lima é, praticamente, o Papa Francisco das telinhas. E ouvir o clamor da população pelo reconhecimento das minorias, pelo fim do patriarcado e do preconceito foi uma atitude respeitável da emissora. Nesse momento, não importam os números de audiência, que são medidos, em cerca de 15 praças, minuto a minuto. Ou, mesmo, o fato de aparecer entre os trend topics do Twitter por dias a fio. Não! É o público que assim o quer! É o clamor da nova geração cultural sendo ouvido! Meu caro leitor, perdoe-me a carga de ironia contida nesse parágrafo, mas será que já nos questionamos, em algum momento, como ocorre o percurso de toda a carga informativa e/ou de entretenimento que deságua sobre nós?
A ingenuidade parece nos acompanhar desde o nosso “achado”, em 1500... Passando pelos conceitos que fomos formando acerca de cada período histórico. O mais recente deles? Globalização (olha... até aqui a Globo não se deixa esquecer... hahaha). Eu acho o máximo estar informada do que ocorre no extremo do mundo, em tempo real. Você também deve achar, afinal, foi o desenvolvimento da própria humanidade que demandou pela eliminação das fronteiras, geográficas e comunicacionais, certo? Para isso, recorro à oportuna e chocante provocação feita pelo saudoso Milton Santos, em sua obra Por uma Outra Globalização. De onde partiu essa maravilha dos anos 80? Por que tantos esforços despendidos para que eu possa, daqui, sem intermédios de importadores, receber um item comprado na China? Apesar de o autor trazer algumas respostas - veja um documentário interessante, sobre o autor e sua obra, aqui -, recomendo que tente achar as suas próprias, mas tente deixar de lado a ingenuidade, que insiste em nos acalmar e conferir tanta credibilidade ao que recebemos, a ponto de avançarmos sobre o vilão da novela, que caminha, passivamente, pelo calçadão do Leblon.

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Calma, caro leitor, o objetivo não é assustá-lo. Muito menos, desiludi-lo. Nem tudo é uma pseudo autonomia! Ainda estamos no comando! Veja o avanço das plataformas de streaming, por exemplo. Um “mundo” de programação ali, pronta para o seu deleite, à livre escolha e ainda trazendo o plus das produções interativas, nas quais você decide os rumos do personagem. Não é o máximo?

Para provar isso, abra seu navegador, vá até a Netflix e escolha o filme Black Mirror:Bandersnatch. Nele, quem manda é você. Experimente! Ah, não fique chateado se a Netflix interferir, um pouquinho, no seu poder de escolha. Não é nada pessoal... É em nome de um bem maior.