quarta-feira, 1 de maio de 2019

Quando as políticas estão distantes...

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Minha primeira experiência com a oferta de graduação, estruturada em formato EaD, foi numa instituição à qual chamarei de ABC, em 2017, ministrando aulas nos cursos de bacharelado em Ciências Contábeis e Pedagogia, além de uma turma de pós-graduação Interdisciplinar. De início, algumas questões já me incomodavam bastante, na ABC... Aspectos direcionais e pedagógicos eram motivos de constante discussão entre mim e alguns outros colegas, cujas críticas eram semelhantes.

O formato já era, a meu ver, uma afronta à formação que eu havia mentalizado, como sendo a mais adequada aos futuros profissionais que eu estaria ajudando a formar. As aulas presenciais eram mensais e por disciplina, sendo que nos reuníamos com as turmas durante o sábado e o domingo e, a cada final de semana, eu tentava focar esse pensamento: “esta será a melhor aula que eu posso entregar e eles serão os melhores profissionais, em suas áreas”.


Os materiais que eram enviados, previamente, pela coordenação, aos alunos e professores (incompletos, em todas as ocasiões) eram, na maioria das vezes, deixados de lado, nas minhas aulas, e partíamos para “beber das fontes”, em cada disciplina. Sem peso algum na consciência, disponibilizava os arquivos de livros de que dispunha e tentávamos esticar aqueles finais de semana ao máximo, colocando todo o nosso empenho (meu e dos alunos) em fazer daquele encontro produtivo e uma porta para continuar na caminhada, rumo à formação, tentando vencer as barreiras já, naturalmente, impostas. Assim acontecia. Foram 4 disciplinas na turma de Contábeis e 2 em duas turmas de Pedagogia. Especialmente, com a turma de Contábeis, fomos criando uma relação de confiança, regada a discussões técnicas e aprofundando o máximo que aqueles 1 dia e meio permitiam.

Ao relacionarmos a realidade daquelas turmas da Instituição ABC com as questões de políticas públicas e sistema de ensino, percebemos o quão altas são essas barreiras, que esses alunos estão transpondo, até hoje. A Instituição atua em uma cidade cuja oferta de ensino superior, presencial, é inexistente, mesmo por instituições privadas, o que leva a maioria dos graduandos aos formatos EaD ou ao enfrentamento de viagens de ida e volta, até a cidade mais próxima, que oferte. Viagens essas, inclusive, que só são possíveis quando há oferta de transporte pela prefeitura; algo nem sempre realidade. Novamente, perguntamos por onde andam as políticas públicas...

Resultado de imagem para superaçãoMas, felizmente, nem tudo é lamentação, nesse meu breve relato. Como disse, das 4 turmas pelas quais passei, a de Contábeis resultou em maior contato e trocas (por motivos óbvios). Essa turma, que começou com cerca de 25 matriculados e, na reta final do curso, chegou a, apenas 7 (sete), me trazia orgulho, a cada conquista. Cada vez que traziam uma situação prática e relacionavam com o que víamos em sala de aula e cada vez que me “provocavam”, por e-mail ou Whatsapp, com uma dúvida, gerada a partir da leitura mais aprofundada dos conteúdos. Entre esses 7 alunos, está Maurício*, um aluno já maduro, um pouco mais velho que eu e entre os mais aplicados da sala, além de ser o que mais se utilizava dos meus canais de contato...rsrs. Apesar de orientação expressa da Instituição ABC para que os alunos não nos “importunassem” após a finalização das disciplinas, pois, segundo posicionamento da coordenação, nosso vínculo duraria, apenas, o final de semana de encontros, eu não sou prestadora de serviços. Sou professora. Escolhi isso e, junto, escolhi o vínculo com meus alunos, pelo tempo que eles precisem.

Imagem relacionadaPois... Maurício usava desse vínculo “sem dó” (ainda bem...rsrs). Além de focado em sala, questionador e extremamente dedicado, frequentemente me contatava para dúvidas, experiências e etc. O mais recente desses contatos foi para dividir comigo a notícia da aprovação no exame do Conselho Federal de Contabilidade, etapa indispensável para o exercício da profissão. Num exame, cujo índice de aprovação, em 2018 foi de, aproximadamente, 30%, Maurício estava lá. Estudante da modalidade EaD, numa localidade distante dos grandes centros, mas com uma persistência que não vê nada, nem ninguém, à sua frente, que o impeça de seguir seu sonho e trilhar na carreira que tanto ama: Contador. Seu caminho será brilhante, Maurício!

Entretanto, devemos refletir no sentido de que Maurício é uma exceção. Inspirador, mas ainda exceção. Nem todos conseguem transformar as dificuldades em força para seguir em frente e nós, como educadores, não podemos esperar que todos os alunos precisem passar por tudo o que Maurício passou para alcançarem a educação, direito constitucionalmente garantido.

Sigo na torcida, pelo caminho de todos os meus alunos e agradeço ao Maurício pela bela história, que ainda trará muitas conquistas.

*Maurício é o nome real e o mesmo autorizou sua menção, nesta postagem.

Um comentário:

  1. Bacana a história de Maurício, mas como você mesma afirmou, uma exceção. O problema é que Maurício acaba se tornando um ícone, um exemplo para culpabilizar os demais, que não conseguiram trilhar os mesmos caminhos que ele. Com isso, a instituição se desresponsabiliza da formação dos sujeitos, atribuindo exclusivamente a eles a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso. E essa prática é perversa, pois sabemos que os modelos adotados são para poucos, busca seletividade, embora mascarada com o discurso das oportunidades, da inclusão, da democratização. É fundamental fazer a crítica!

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