O ano era 2011. Eu, estreante no Facebook, adesão à qual
resisti ~ quase ~ bravamente, navegava pela time
line, quando, em postagem de um amigo, vi algo que me chamou à atenção: era
um chamado a uma “marcha”, que se dizia “contra a corrupção”. Interessada por
pautas políticas desde quando ainda nem podia participar delas, cliquei, para
maiores informações. A realização era creditada ao Dia do Basta à Corrupção,
movimento que se denominava como “nacional, pacífico e apartidário”. Vi que
fora realizado em várias cidades e Salvador estava entre elas. Aquilo me
interessou... Porém, essa minha resistência em aderir ao Facebook teve um
preço: minha conta foi aberta em maio de 2011 e a marcha havia sido em 21 de
abril. Que pena! Mas fui lendo e, para minha surpresa, o movimento contava com
datas fixas do evento, sempre em abril, setembro e dezembro.
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| Marcha convocada em 2011, contra o projeto da Usina de Belo Monte. |
Ao ler mais sobre o Dia do Basta, através de seu website,
blog e página do próprio Facebook, inexplicavelmente, me vi parte daquilo, ao
conhecer as principais reivindicações do movimento, que eram, especialmente: Voto aberto Parlamentar, Corrupção para
Crime Hediondo, Fim do Foro Privilegiado e 10% do PIB para a Educação.
Senti já estando em um dos eventos, colaborando com o movimento e, finalmente,
tendo uma esperança de uma participação política fora do status quo. Passei a fazer parte da comunidade do Facebook,
participar das discussões, arriscar sugestões e conhecer o processo de
articulação do movimento que, pasmem, não tinha um líder. Claro que, como todo
grupo, há pessoas que cuidam dos trâmites, que participam mais ativamente e
auxiliam no processo de “fazer acontecer”. Esses eram denominados “coordenadores”,
que se dividiam em local e nacional. Contudo, essa coordenação não
agia nem permitia ser taxada como líder ou realizador. Todas as decisões eram
postas na “mesa” do Facebook e, a partir de votos e sugestões, eram postas em
prática. Eu me sentia na democracia ateniense, com milhares de ágoras em cada
casa, clicando para confirmarem seus votos. O mais engraçado? O Facebook ainda
nem contava com a opção de enquete, o que tornava o processo de apuração um
“deus nos acuda”... hahahaha.
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| 07/09/2012 - Eu, minha amiga e minha mãe. |
Em 2012, consegui participar de uma das marchas, levando junto minha mãe e uma amiga. Parecia que eu sempre estive ali. Decorei todas as palavras de ordem, percorri todo o trajeto com o peito cheio de esperanças e, ao final, fiquei para a tradicional “reunião pós ato”. Ali, conheci, pessoalmente, os principais articuladores e suas ideologias. Pessoas simples, na maioria estudantes e/ou professores, que em comum tinham: o descontentamento político, vontade de mudança e inclinação à abnegação. Aquilo era o Dia do Basta. Presente em todos os estados do país, defendendo pautas que contemplavam, especialmente, educação, saúde e transparência e que se articulava através das redes sociais, contando com 3 marchas fixas anuais e atos para pautas urgentes, que ocorriam em vias movimentadas da cidade, mas sempre em feriados, para evitar transtornos aos trabalhadores, no trânsito. E aquela era a minha comunidade.
Passei a participar de todas as reuniões presenciais (com
data e horário acordados via enquete) que se fizessem necessárias para a
complementação da articulação realizada nas redes, apesar de 90% serem pelas
plataformas online. Reuníamos em livrarias, praças, onde fosse viável. Algumas, mais
movimentadas, cheias daqueles rostos já conhecidos pela foto do perfil do
Facebook; outras, nem tanto, havendo casos com 3 pessoas. Mas nunca deixaram de
ocorrer. Da mesma forma, as marchas nunca foram suspensas por falta de público.
Oscilavam das centenas aos casos em que poderíamos contar pouco mais de 10
pessoas, mas sempre estávamos lá.
Sempre! Os gritos e palavras de ordem, bem como os cartazes, poderiam estar em
menor tamanho, mas nunca deixaram de existir.
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| A despedida de Fabricio (ao centro), então coordenador local, em 2013. |
Até que, 2013, por um
“convite” quase que imposto pelo grupo, assumi a coordenação local. Em uma das
reuniões online rotineiras, a pauta era o apoio às manifestações pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo, no valor de 0,20. Aqui, cabe uma contextualização: muitos de nós, inclusive eu, estudante
secundarista, à época, esteve presente na Revolta do Buzu (ato que contribuiu para a origem do Movimento Passe Livre), ocorrida em 2003, em Salvador, e que
serviu de modelo para várias outras capitais, alcançando uma proporção
inimaginável, tanto pela sua importância quanto pelas realizações alcançadas. À
época, das 10 exigências do movimento, apenas uma não foi atendida (a revogação do aumento). Todas as demais foram; inclusive, a mais celebrada, que foi a
meia-passagem para cursos de pós-graduação, de todos os tipos - vale a conferida nesse documentário.
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| Início das manifestações de 2013. |
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| Salvador - junho de 2013. |
Durante um dos jogos da Copa das Confederações, rumamos em
direção à Fonte Nova. Nesse dia, percebemos a quem a polícia serve e o grau de
importância que tem famílias morrendo em decorrência da acentuada corrupção
nacional, no “país do futebol”. Do lado de cá, não havia armas, nem bombas. Lá?
Emboscada. Ouvi de um policial, em um momento de aproximação: “eu apoio a luta
de vocês, mas a maioria, não; a cavalaria está escondida, se afastem; é um
conselho que dou a vocês”. Nós não ouvimos. Em segundos, bombas de gás, de
efeito moral, vindas de todos os lados: do alto, de trás das árvores; um abate!
Foi um dos piores dias das nossas vidas. Nessas horas, você se pergunta se não
seria mais feliz estando lá dentro, torcendo na arquibancada - aqui, tem 40 segundos da pior tarde de junho.
A resposta? Não, não seríamos! Porque é assim que exercemos
a nossa cidadania. É dessa comunidade que fazemos parte. Assim que
representamos e nos sentimos representados. Estamos em tudo e não pertencemos a
nada, ao mesmo tempo. Somos uma ideia, um ideal, uma ideologia. O fato é que, o
que ganhou o nome de Jornadas de Junho, para nós, cidadãos dessa pólis que se
materializa atrás de cada tela de computador, consiste em muitos “junhos” e não começou, muito menos acabou, em 2013. Mesmo tendo sido usado como trampolim para vários grupos
oportunistas, tais como Movimento Brasil Livre, Nas Ruas e Vem pra Rua, o “junho
de 2013” tem um lugar muito especial no desenvolvimento da minha cidadania
digital. Atualmente, faço parte da coordenação nacional do Dia do Basta, junto com a Laura Xavier e o Erik Chendo, fundadores do movimento; e,
mesmo com demandas que me afastam da atuação mais presente, só tenho orgulho
por ser uma espécie de “bit”, um grãozinho dessa grande comunidade de net-ativistas
que, através das redes, busca melhorar o mundo.
O “gigante” não acordou, porque nunca estivemos dormindo.


















