segunda-feira, 25 de março de 2019

Cidadão “Quem”?


O ano era 2011. Eu, estreante no Facebook, adesão à qual resisti ~ quase ~ bravamente, navegava pela time line, quando, em postagem de um amigo, vi algo que me chamou à atenção: era um chamado a uma “marcha”, que se dizia “contra a corrupção”. Interessada por pautas políticas desde quando ainda nem podia participar delas, cliquei, para maiores informações. A realização era creditada ao Dia do Basta à Corrupção, movimento que se denominava como “nacional, pacífico e apartidário”. Vi que fora realizado em várias cidades e Salvador estava entre elas. Aquilo me interessou... Porém, essa minha resistência em aderir ao Facebook teve um preço: minha conta foi aberta em maio de 2011 e a marcha havia sido em 21 de abril. Que pena! Mas fui lendo e, para minha surpresa, o movimento contava com datas fixas do evento, sempre em abril, setembro e dezembro.

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Marcha convocada em 2011, contra o projeto da Usina de Belo Monte.
Ao ler mais sobre o Dia do Basta, através de seu website, blog e página do próprio Facebook, inexplicavelmente, me vi parte daquilo, ao conhecer as principais reivindicações do movimento, que eram, especialmente: Voto aberto Parlamentar, Corrupção para Crime Hediondo, Fim do Foro Privilegiado e 10% do PIB para a Educação. Senti já estando em um dos eventos, colaborando com o movimento e, finalmente, tendo uma esperança de uma participação política fora do status quo. Passei a fazer parte da comunidade do Facebook, participar das discussões, arriscar sugestões e conhecer o processo de articulação do movimento que, pasmem, não tinha um líder. Claro que, como todo grupo, há pessoas que cuidam dos trâmites, que participam mais ativamente e auxiliam no processo de “fazer acontecer”. Esses eram denominados “coordenadores”, que se dividiam em local e nacional. Contudo, essa coordenação não agia nem permitia ser taxada como líder ou realizador. Todas as decisões eram postas na “mesa” do Facebook e, a partir de votos e sugestões, eram postas em prática. Eu me sentia na democracia ateniense, com milhares de ágoras em cada casa, clicando para confirmarem seus votos. O mais engraçado? O Facebook ainda nem contava com a opção de enquete, o que tornava o processo de apuração um “deus nos acuda”... hahahaha.

07/09/2012 - Eu, minha amiga e minha mãe.
Em 2012, consegui participar de uma das marchas, levando junto minha mãe e uma amiga. Parecia que eu sempre estive ali. Decorei todas as palavras de ordem, percorri todo o trajeto com o peito cheio de esperanças e, ao final, fiquei para a tradicional “reunião pós ato”. Ali, conheci, pessoalmente, os principais articuladores e suas ideologias. Pessoas simples, na maioria estudantes e/ou professores, que em comum tinham: o descontentamento político, vontade de mudança e inclinação à abnegação. Aquilo era o Dia do Basta. Presente em todos os estados do país, defendendo pautas que contemplavam, especialmente, educação, saúde e transparência e que se articulava através das redes sociais, contando com 3 marchas fixas anuais e atos para pautas urgentes, que ocorriam em vias movimentadas da cidade, mas sempre em feriados, para evitar transtornos aos trabalhadores, no trânsito. E aquela era a minha comunidade.

Passei a participar de todas as reuniões presenciais (com data e horário acordados via enquete) que se fizessem necessárias para a complementação da articulação realizada nas redes, apesar de 90% serem pelas plataformas online. Reuníamos em livrarias, praças, onde fosse viável. Algumas, mais movimentadas, cheias daqueles rostos já conhecidos pela foto do perfil do Facebook; outras, nem tanto, havendo casos com 3 pessoas.  Mas nunca deixaram de ocorrer. Da mesma forma, as marchas nunca foram suspensas por falta de público. Oscilavam das centenas aos casos em que poderíamos contar pouco mais de 10 pessoas, mas sempre estávamos lá. Sempre! Os gritos e palavras de ordem, bem como os cartazes, poderiam estar em menor tamanho, mas nunca deixaram de existir.

A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Emerson Aguiar, Elisabeth Araujo, Marcos Musse, Fabricio Moreira e Bianca Sales
A despedida de Fabricio (ao centro), então coordenador local, em 2013.
Até que, 2013, por um “convite” quase que imposto pelo grupo, assumi a coordenação local. Em uma das reuniões online rotineiras, a pauta era o apoio às manifestações pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo, no valor de 0,20. Aqui, cabe uma contextualização: muitos de nós, inclusive eu, estudante secundarista, à época, esteve presente na Revolta do Buzu (ato que contribuiu para a origem do Movimento Passe Livre), ocorrida em 2003, em Salvador, e que serviu de modelo para várias outras capitais, alcançando uma proporção inimaginável, tanto pela sua importância quanto pelas realizações alcançadas. À época, das 10 exigências do movimento, apenas uma não foi atendida (a revogação do aumento). Todas as demais foram; inclusive, a mais celebrada, que foi a meia-passagem para cursos de pós-graduação, de todos os tipos - vale a conferida nesse documentário.

A imagem pode conter: 8 pessoas
Início das manifestações de 2013.
Como precursores do Movimento Passe Livre, não podíamos negar apoio às pautas de São Paulo, especialmente porque nós, só nós, sabíamos que a reivindicação não era pelos “vinte centavos”. Aqui, fica clara a diferença entre fazer parte de uma comunidade e não ter ideia do que ela representa. Só quem pulsava na mesma vibração sabia que aqueles 0,20 eram a simbologia de algo maior, mais profundo; de uma ferida muito mais grave, da qual nunca nos curamos. No entanto, era difícil explicar às incessantes chamadas feitas, com maior frequência, pela Rede Globo, que não éramos “vândalos protestando por vinte centavos”. Éramos, inicialmente, estudantes e professores, mas, depois, pais, mães, trabalhadores, jovens, velhos, brancos, negros passando uma mensagem de que mobilidade era apenas uma das mazelas das quais sofríamos, porque o conjunto que nos movia consistia numa imensidão de pontos negligenciados pelo poder público. Infelizmente, durante muito tempo do movimento que durou, ativamente, cerca de 2 meses, foi assim que o Cidadão Kane tupiniquim imprimiu a imagem dos manifestantes - veja um exemplo, aqui, ao afirmarem ter havido invasão ao bloqueio policial.

Manifestantes correm da fumaça de bombas de gás lacrimogêneo em Salvador
Salvador - junho de 2013.
Felizmente, já podíamos contar com os “brotos” da imprensa independente, que se manifestava através das telas de celulares dos próprios manifestantes e, institucionalmente, se materializava em veículos como o Mídia Ninja que, a partir de colaboradores em todo o país, ajudou a dar notoriedade aos registros da real postura dos manifestantes e, especialmente, da truculência policial, que, em Salvador, teve seu ápice no dia 20 de junho, o fatídico dia em que nos atrevemos a desafiar a instituição futebolística.

Durante um dos jogos da Copa das Confederações, rumamos em direção à Fonte Nova. Nesse dia, percebemos a quem a polícia serve e o grau de importância que tem famílias morrendo em decorrência da acentuada corrupção nacional, no “país do futebol”. Do lado de cá, não havia armas, nem bombas. Lá? Emboscada. Ouvi de um policial, em um momento de aproximação: “eu apoio a luta de vocês, mas a maioria, não; a cavalaria está escondida, se afastem; é um conselho que dou a vocês”. Nós não ouvimos. Em segundos, bombas de gás, de efeito moral, vindas de todos os lados: do alto, de trás das árvores; um abate! Foi um dos piores dias das nossas vidas. Nessas horas, você se pergunta se não seria mais feliz estando lá dentro, torcendo na arquibancada - aqui, tem 40 segundos da pior tarde de junho.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Marcha do Dia do Basta - Belo Horizonte - 2012.
A resposta? Não, não seríamos! Porque é assim que exercemos a nossa cidadania. É dessa comunidade que fazemos parte. Assim que representamos e nos sentimos representados. Estamos em tudo e não pertencemos a nada, ao mesmo tempo. Somos uma ideia, um ideal, uma ideologia. O fato é que, o que ganhou o nome de Jornadas de Junho, para nós, cidadãos dessa pólis que se materializa atrás de cada tela de computador, consiste em muitos “junhos” e não começou, muito menos acabou, em 2013. Mesmo tendo sido usado como trampolim para vários grupos oportunistas, tais como Movimento Brasil Livre, Nas Ruas e Vem pra Rua, o “junho de 2013” tem um lugar muito especial no desenvolvimento da minha cidadania digital. Atualmente, faço parte da coordenação nacional do Dia do Basta, junto com a Laura Xavier e o Erik Chendo, fundadores do movimento; e, mesmo com demandas que me afastam da atuação mais presente, só tenho orgulho por ser uma espécie de “bit”, um grãozinho dessa grande comunidade de net-ativistas que, através das redes, busca melhorar o mundo.

O “gigante” não acordou, porque nunca estivemos dormindo.

E você, qual a sua cidadania?

> Veja uma chocante galeria de fotos, de junho de 2013, aqui.

domingo, 17 de março de 2019

"O pop não poupa ninguém!"

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Um ponto importante da cultura de massas é a ponte que esta constrói entre o popular e o erudito. Como assim? A penetração massiva reduz o abismo entre o intocável, reservado às elites, e o popular, avassalador, o produto da classe baixa, experimentado pelos 99% menos abastados. A cultura de massas traz uma nova matemática a essa relação.


Debaixo de forte crítica, pelo lado erudita da história, a Orquestra Sinfônica da Bahia - OSBA, desde a assunção do maestro Carlos Prazeres, tem adotado essa postura de “ponte”. Projetos audaciosos, como levar o grupo Olodum à sala principal do Teatro Castro Alves, ou atrever-se a deixar a indumentária sóbria de lado, assumindo as vestimentas dos personagens e adentrando o mundo da fantasia das trilhas sonoras de grandes nomes do cinema mundial, em seu lindo projeto, Cine Concerto, fazem parte de uma nova ideologia, adotada pela OSBA, de “popularizar a música clássica” e abrir as portas para que pessoas estranhas ao erudito o experimentem, mesmo que pela porta de entrada popular. Os concertos, outrora com público que estava longe de lotar os cerca de 1500 lugares da sala do TCA, passaram a demandar duas, três, até mesmo quatro apresentações extras. Todas esgotadas. O popular estava lá! Na casa do erudito e fazendo a festa! Eu, fã incondicional da OSBA, passei a encontrar amigos que nunca imaginaria estarem ali. Maravilha! Eles também descobriram o quão maravilhoso é isso aqui! E a música cumpriu seu papel, mais uma vez.

Mozart, inclusive, já derrubava a falácia de que era necessário preparo especial para ouvir música clássica ou o pertencimento a determinada classe, visto que suas composições alcançavam a realeza e a massa - indico um filme interessante sobre a vida do músico, aqui.
Nessa interconexão, constata-se a dificuldade, provocada por Santaella, em diferenciar o que se mantém clássico e o que já se rendeu às seduções populares. Ora, examinemos outras duas situações:
O cientista Stephen Hawking ao lado do ator Jim Parson em gravação de The Big Bang Theory - Imagens: Divulgação/CBS
Quantos, hoje, conhecem o importante físico Stephen Hawking? Na verdade, a pergunta correta é: quantos ficaram conhecendo o físico através de outras provocações, que não a sua obra? Eu ajudo: acaso todos os que, atualmente, não são mais estranhos a esse nome, o eram antes da série de TV The Big Bang Theory? Ou, mais recentemente, o eram antes do filme A Teoria de Tudo? Você não precisa nem se cobrar por entender a teoria dos buracos negros (o próprio autor já revisou inúmeras vezes suas teorias), mas, certamente, já sabe que o cientista tem uma memorável contribuição nesse estudo, que iniciou-se séculos atrás, e é possível que tenha despertado a vontade de ler um de seus livros ou conhecer mais sobre ele, se não pelo interesse científico, pela curiosidade que sua condição física desperta.
Ainda na ciência, Alan Turing poderia ser apenas mais um nome estranho, antes do sucesso do cinema O Jogo da Imitação, que se propôs (reservadas todas as licenças poéticas) a contar como o brilhante matemático britânico se tornou um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial, aplicando seus conhecimentos lógico-matemáticos na decodificação de códigos alemães e contribuindo para o fim da guerra. Hoje, Turing não é mais um nome restrito à Academia ou às rodas de intelectuais de exatas. Seu nome está nas piadas, em trocadilhos que tratam de quebra de códigos e, especialmente, em debates e discussões que abordam o caráter nocivo que o preconceito contra LGBTs carrega.

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Quanto a mim, prefiro o TCA cheio do que um espetáculo frio, direcionado a poltronas vazias, inanimadas, inalcançadas pelo poder da música. Prefiro Hawking e Turin sentados nas mesas de bar, nas conversas informais, do que presos às páginas fechadas na biblioteca. Se a cultura das mídias for capaz de manter essas articulações fluidas, já me parece muito válido! A única preocupação reside em não tornar a condição física de Hawking e a homossexualidade de Turim superiores às suas contribuições para a ciência e o mundo.
Nisso, "o pop não poupa ninguém", devamos confessar.

Camaleões mercadológicos



“Se não pega a Globo, não pega mais nada!”
Minha geração acompanhou a difusão da expressão “mídia de massa” e a frase que iniciou esse texto traz uma elucidação que, talvez, meus pais e avós nunca tenham experimentado: a constatação empírica de que uma localidade na qual o sinal da Rede Globo de Televisão estivesse ruim seria condenada ao limbo televisivo nos dizia muito mais do que um chuvisco na tela e a necessidade de colocar Bombril na antena... O fato de o sinal da gigante Globo chegar até os locais mais inóspitos do país cumpre um papel importante na chamada “mídia massiva”, que é a abrangência. Nisso, o poderoso grupo de comunicação fez um papel formidável, enquanto seus concorrentes amargavam números pífios de audiência e popularidade.

Popularidade essa bem expressa nas novelas, que se tornavam parte das famílias, em pautas de refeições e, pasmem-se, na tomada de decisão se um parente merecia nosso apreço.
“É fã de Nazaré Tedesco? Deve ser psicopata!”
“Não gostou de ‘A Viagem’? Como pode ser tão insensível?”

A penetração da Rede Globo mudou nossa forma de ver a vida e, consequentemente, mudou a própria vida, hábitos, posturas, pontos de vista. As novelas já eram realidade no rádio, mas nada como o impacto que o visual trazia. Nada como a mistura de cores e o balanço das telas; nada como o bailar dos personagens, dentro daquele frame frenético.

Não havia mais confiança na escolha individual para roupas, corte de cabelo...
“Se ninguém na TV usa, devo estar muito errada em querer fios longos e assimétricos.”
“Põe um ‘Chanel’ aqui, por favor!”


Construímos, dessa forma, uma “geração Globo”, mantida intacta por décadas e que ainda está longe de ser substancialmente abalada, sobretudo na geração anterior à Y, os chamados baby boomers.
Quando fomos tomados pelo que Lucia Santaella chama de “cultura das mídias”, um alerta vermelho surgiu entre os players dominantes dos veículos de massa, incluindo grupos de rádio, TV, jornal. A receptividade passiva e o quantitativo de alcance estariam ameaçados pelo poder de escolha e pela fluidez com a qual os conteúdos perpassam entre os variados veículos e formatos de conteúdo? A Globo, novamente, não se conformou em perder a sua hegemonia e, como “camaleoa mercadológica” que é, rapidamente incorporou o conceito de “crosmedia”, já sinalizado como tendência, antes da própria Santaella. As possibilidades se misturavam na tela da TV, numa interconexão formidável, dando “poder de escolha” ao telespectador, desde programas memoráveis como Você Decide, Linha Direta, Criança Esperança e, mais recentemente, Big Brother Brasil.

Você pensava: “estou fazendo a Globo”. Confesse, você, talvez, ainda pensa assim, em cada paredão dos eliminados. Não se culpe, essa é a intenção. E é genuíno da sua parte, aplaudir, a cada semana, os conteúdos abordados pelo revolucionário, vitaminado, baphônico Amor & Sexo. “A Globo está de parabéns!”, você deve pensar... De fato, está. Adaptabilidade assim é para poucos. A Fernanda Lima é, praticamente, o Papa Francisco das telinhas. E ouvir o clamor da população pelo reconhecimento das minorias, pelo fim do patriarcado e do preconceito foi uma atitude respeitável da emissora. Nesse momento, não importam os números de audiência, que são medidos, em cerca de 15 praças, minuto a minuto. Ou, mesmo, o fato de aparecer entre os trend topics do Twitter por dias a fio. Não! É o público que assim o quer! É o clamor da nova geração cultural sendo ouvido! Meu caro leitor, perdoe-me a carga de ironia contida nesse parágrafo, mas será que já nos questionamos, em algum momento, como ocorre o percurso de toda a carga informativa e/ou de entretenimento que deságua sobre nós?
A ingenuidade parece nos acompanhar desde o nosso “achado”, em 1500... Passando pelos conceitos que fomos formando acerca de cada período histórico. O mais recente deles? Globalização (olha... até aqui a Globo não se deixa esquecer... hahaha). Eu acho o máximo estar informada do que ocorre no extremo do mundo, em tempo real. Você também deve achar, afinal, foi o desenvolvimento da própria humanidade que demandou pela eliminação das fronteiras, geográficas e comunicacionais, certo? Para isso, recorro à oportuna e chocante provocação feita pelo saudoso Milton Santos, em sua obra Por uma Outra Globalização. De onde partiu essa maravilha dos anos 80? Por que tantos esforços despendidos para que eu possa, daqui, sem intermédios de importadores, receber um item comprado na China? Apesar de o autor trazer algumas respostas - veja um documentário interessante, sobre o autor e sua obra, aqui -, recomendo que tente achar as suas próprias, mas tente deixar de lado a ingenuidade, que insiste em nos acalmar e conferir tanta credibilidade ao que recebemos, a ponto de avançarmos sobre o vilão da novela, que caminha, passivamente, pelo calçadão do Leblon.

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Calma, caro leitor, o objetivo não é assustá-lo. Muito menos, desiludi-lo. Nem tudo é uma pseudo autonomia! Ainda estamos no comando! Veja o avanço das plataformas de streaming, por exemplo. Um “mundo” de programação ali, pronta para o seu deleite, à livre escolha e ainda trazendo o plus das produções interativas, nas quais você decide os rumos do personagem. Não é o máximo?

Para provar isso, abra seu navegador, vá até a Netflix e escolha o filme Black Mirror:Bandersnatch. Nele, quem manda é você. Experimente! Ah, não fique chateado se a Netflix interferir, um pouquinho, no seu poder de escolha. Não é nada pessoal... É em nome de um bem maior.


domingo, 10 de março de 2019

O que são Tempo e Espaço quando seguimos perdendo ambos?

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Desde que conheci, há algum tempo, o conceito de “Modernidade Líquida”, trazido pelo Bauman, não consegui mais olhar os acontecimentos e as pessoas do mesmo modo de outrora. Mas, ao fazer a leitura com o objetivo de capturar “reações” e externá-las, percebi que estas foram tantas, que se eu expusesse todas, você, leitor, certamente, me acharia louca. Confesso que eu mesma me senti assim. Entretanto, considerei uma loucura boa, reflexiva e, sobretudo, provocativa. De modo que me atrevo a expor algumas.

Logo no início, a leitura me remeteu ao círculo de amizades que me rodeia; às conversas e à recorrente alegação de que “fulana não é mais como antes, encontrou novos amigos e sumiu” ou, ainda, “enjoei do meu relacionamento de 6 meses, acho que vou terminar”. Esses dois exemplos desdobraram-se, em minha mente, em sub-reflexões: fazer novos amigos é bom, mas as amizades duradouras estariam perdendo seu espaço? O desejo por novas conexões se realiza em detrimento das anteriores? Postos precisam ser esvaziados para que novos ocupantes sejam instituídos? Perdemos a habilidade da negociação relacional e, por isso, estamos a trocar de companheiros, sempre movidos pelas “borboletas no estômago” e descobertas, típicas da fase inicial? Por que buscamos a novidade do desconhecido, quando, nem mesmo, desvendamos o que ali já estava? Ao relacionar com o “amor cego”, de que Nietzsche tratava, em sua obra O Anticristo, suponho que não estejamos prontos para enxergar as coisas como são e, por isso, relutamos em sair da fase da paixão idealizadora (que, imagino, fosse a real intenção de Nietzsche, ao tratar da fase na qual enxergamos as coisas como elas não são - veja um resumo interessante, aqui) e, então, talvez, essas mudanças não sejam em busca de algo novo, mas da manutenção daquilo que idealizei.

A redução da comunicação nos relacionamentos – familiares, afetivos, fraternos – contribui com a manutenção do que idealizamos. Não conhecer do outro parece trazer menos decepções. E com tantas outras distrações diárias, talvez não sobre tempo, de fato, para essa descoberta. Estamos dispersos do outro, presos em nós; longe do coletivo, presos no individual. Na “modernidade líquida” do meu celular, o mundo é “configurado” por e para mim. Ali, eu me basto. Será?

Os avanços tecnológicos são de suma importância nessa análise, pois há que se questionar o uso que temos feito de todo esse aparato, dotado de potencial inimaginável e capaz de feitos que a mente humana, talvez, nem tenha sido capaz de conceber. A tecnologia reduziu o custo da informação e o tempo necessário para acesso à mesma; possibilitou feitos científicos extraordinários e devolveu esperança à humanidade, em muitas áreas. Mas será que essa velocidade devastadora com a qual a tecnologia nos atingiu veio acompanhada do esclarecimento necessário para manuseio de ferramenta tão poderosa?

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A difusão do mundo virtual nos proporciona uma infinidade de possibilidades e, entre elas, está a negação do “eu”, através da falsa sensação de anonimato, e isso alerta para um grau de insatisfação, não apenas com o outro, mas consigo mesmo, vide o número de perfis fake criados em redes sociais; alguns, com intuito de vender uma imagem própria que nunca existiu e, provavelmente, nunca será alcançada. A intolerância, além de ser dirigida ao outro, pela sua religião, cor, etnia voltou-se para dentro. Revelamos indivíduos intolerantes consigo. Incapazes de aceitarem-se e, numa busca desesperada para enquadrarem-se nesse “quebra-cabeças” chamado sociedade pós-moderna, criam personagens, personalidades, rostos e corpos, que passam a “vender”, através das redes. Como, em muitos casos, as relações permanecem virtuais por longos períodos ou, até mesmo, dissolvem-se sem nunca terem atingido a esfera do presencial, esse personagem será imortalizado no outro, que nunca terá acesso ao seu intérprete.

Mas isso não será, necessariamente, um problema. Vivemos em e na rede. Nossa rotina virtual adquiriu o status de rotina principal. O “eu” virtual é mais real que o “eu” que está atrás da tela. Isso se torna assustador, pois os “eus” virtuais têm revelado personalidades nocivas, em muitos casos. O desejo por expurgar seja lá o que for tem sobreposto o de lutar juntos pelo avanço, pelo desenvolvimento e, especialmente, pela justiça. A cegueira da Têmis foi substituída pela cegueira do ódio, da vingança e da barbárie, num campo de batalha em que o sangue escorre pelo cabeamento da fibra óptica. Fomos enganados, então? Deram-nos um mundo em uma tela para nos tornarem incapazes de construir um mundo coletivo, fora dela? “Segregar para dominar”, é isso? Até onde temos domínio sobre as “configurações”? Meu avatar é moldado por mim ou pelos algoritmos? Aliás, o que são os algoritmos? Quem os autorizou a saberem mais de mim do que eu mesma?

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Entretanto, como já dito, os feitos, que só foram possíveis através do avanço tecnológico, fazem refletir que a tecnologia não seja ruim, em essência, e que esteja, em verdade, respondendo aos estímulos que recebe, por meio do uso que fazemos das suas infinitas possibilidades. Mas, o que vejo, é uma subutilização dessa gama de possibilidades. Fazemos banquetes de “coelhos”,sem nunca termos experimentado o gosto da carne dos “veados e, consequentemente, não temos acesso aos seus benefícios. Nas trocas de energia, predominam as ondas eletromagnéticas e, cada vez menos, as sensoriais. Formamos um imenso “coletivo” virtual, mas adoecemos, sozinhos, em nossas bolhas individuais que, nem sempre, ocupamos por escolha, mas por falta dela. Lembro-me de achar um tanto estranho, na cidade de Santiago, no Chile, praças lotadas, com pessoas dormindo, estudando, fazendo apresentações artísticas, conversando ou, simplesmente, esperando a intrajornada de trabalho e questionei a mim mesma, sem perceber que o tinha feito em voz alta: “quando paramos de ocupar as praças da nossa cidade?”. Até que uma amiga respondeu, ao achar que a indagação tivesse sido para ela: “quando fomos dominados pelo medo de nelas estarmos!”. Como eu não havia pensado nisso antes? Vivemos um paradoxo, onde governantes orgulham-se por exibir praças, maravilhosamente ornamentadas, mas vazias. Espaços feitos para nunca serem ocupados. Mas nós, soteropolitanos, adoramos shoppings centers, sim? Não. Quando dissemos isso? Em que momento afirmamos preferir um edifício absurdamente iluminado, cheio de almas, muitas vezes, vazias em si, respirando ar condicionado, à contemplação do externo, das multicores que as ruas são capazes de formar? Novamente, fomos enganados? Não sei...

O fato é que estamos lá. Exatamente onde querem que estejamos. Diariamente. Mas somos nós quem decidimos ir, correto? Adquirimos objetos nesses centros, de modo desenfreado, porque nós assim o queremos? A resposta pode estar na série de processos judiciais movidos contra os principais players do mercado tecnológico, sob acusação de “obsolescência programada”. Ou em quando achamos vergonhoso portarmos um modelo de smartphone fabricado há 2 anos. Ou quando adquirimos uma TV com tecnologia 4k, quando a mesma ainda nem era capaz de ser utilizada no Brasil, mas o contrato de venda não trazia isso. Aliás, ainda existem “contratos de venda”? Sei que vai parecer delírio, mas, em muitos momentos, durante a “conversa” com Bauman, me senti no Show de Trumam. Ele escapou. Conseguirei o mesmo?

Esses questionamentos trouxeram várias outras ramificações, na minha mente, nos campos social, político... Remeteu-me à formação educacional, por exemplo. Por que estamos tão superficiais no aprendizado? Por que lemos tão pouco sobre quase nada? Paradoxalmente, nunca escrevemos tanto, sobre tanta coisa e interpretamos tão mal. Estamos bombardeados com sofismas que celebram a implantação do ensino médio, integralmente ministrado através de vídeo-aulas, em tempo real, em localidades que, sabidamente, não possuem serviço de internet compatível e, muito menos, estável. Esses mesmos alunos serão acusados, em muitos casos, de não terem se dedicado ao ensino médio, quando suas deficiências forem postas à prova, na Universidade. Mas as estatísticas apontarão para um cenário ideal, de acesso à educação básica e superior. O problema estará resolvido e o governante já pode contar com isso na sua bagagem de benfeitorias realizadas em “tempo recorde”.

Tempo, aliás, tem sido largamente explorado na esfera governamental. Em verdade, a dispensabilidade dele. Ainda é intrigante a capacidade que nossa “decisão democrática” teve de, ao comparar dois possíveis planos de governo, optar pelo falacioso, ofensivo, ilógico, milagroso e, óbvio, imediato; sem muito o que ler, numa espécie de treinamento intensivo da ferramenta WordArt, famosa por suas letras hipnotizantes. O plano concorrente era muito estranho. Apenas letras sóbrias e contendo conceitos de Estado Democrático de Direito, democracia representativa e coletividade. Nenhum meme, nenhum xingamento ou gráficos em “vermelho-sangue”, reportando dados deturpados. Parece não ter se adequado à legião de apressados e pecou por não oferecer o imediatismo ovacionado. Será que quem o elaborou não compreendeu que não temos tempo para dialogar, para colaboração e construção democrática?

No fim, nessa maravilhosa modernidade, na qual vivemos, ganhou o meme. Perdemos nós.