domingo, 17 de março de 2019

Camaleões mercadológicos



“Se não pega a Globo, não pega mais nada!”
Minha geração acompanhou a difusão da expressão “mídia de massa” e a frase que iniciou esse texto traz uma elucidação que, talvez, meus pais e avós nunca tenham experimentado: a constatação empírica de que uma localidade na qual o sinal da Rede Globo de Televisão estivesse ruim seria condenada ao limbo televisivo nos dizia muito mais do que um chuvisco na tela e a necessidade de colocar Bombril na antena... O fato de o sinal da gigante Globo chegar até os locais mais inóspitos do país cumpre um papel importante na chamada “mídia massiva”, que é a abrangência. Nisso, o poderoso grupo de comunicação fez um papel formidável, enquanto seus concorrentes amargavam números pífios de audiência e popularidade.

Popularidade essa bem expressa nas novelas, que se tornavam parte das famílias, em pautas de refeições e, pasmem-se, na tomada de decisão se um parente merecia nosso apreço.
“É fã de Nazaré Tedesco? Deve ser psicopata!”
“Não gostou de ‘A Viagem’? Como pode ser tão insensível?”

A penetração da Rede Globo mudou nossa forma de ver a vida e, consequentemente, mudou a própria vida, hábitos, posturas, pontos de vista. As novelas já eram realidade no rádio, mas nada como o impacto que o visual trazia. Nada como a mistura de cores e o balanço das telas; nada como o bailar dos personagens, dentro daquele frame frenético.

Não havia mais confiança na escolha individual para roupas, corte de cabelo...
“Se ninguém na TV usa, devo estar muito errada em querer fios longos e assimétricos.”
“Põe um ‘Chanel’ aqui, por favor!”


Construímos, dessa forma, uma “geração Globo”, mantida intacta por décadas e que ainda está longe de ser substancialmente abalada, sobretudo na geração anterior à Y, os chamados baby boomers.
Quando fomos tomados pelo que Lucia Santaella chama de “cultura das mídias”, um alerta vermelho surgiu entre os players dominantes dos veículos de massa, incluindo grupos de rádio, TV, jornal. A receptividade passiva e o quantitativo de alcance estariam ameaçados pelo poder de escolha e pela fluidez com a qual os conteúdos perpassam entre os variados veículos e formatos de conteúdo? A Globo, novamente, não se conformou em perder a sua hegemonia e, como “camaleoa mercadológica” que é, rapidamente incorporou o conceito de “crosmedia”, já sinalizado como tendência, antes da própria Santaella. As possibilidades se misturavam na tela da TV, numa interconexão formidável, dando “poder de escolha” ao telespectador, desde programas memoráveis como Você Decide, Linha Direta, Criança Esperança e, mais recentemente, Big Brother Brasil.

Você pensava: “estou fazendo a Globo”. Confesse, você, talvez, ainda pensa assim, em cada paredão dos eliminados. Não se culpe, essa é a intenção. E é genuíno da sua parte, aplaudir, a cada semana, os conteúdos abordados pelo revolucionário, vitaminado, baphônico Amor & Sexo. “A Globo está de parabéns!”, você deve pensar... De fato, está. Adaptabilidade assim é para poucos. A Fernanda Lima é, praticamente, o Papa Francisco das telinhas. E ouvir o clamor da população pelo reconhecimento das minorias, pelo fim do patriarcado e do preconceito foi uma atitude respeitável da emissora. Nesse momento, não importam os números de audiência, que são medidos, em cerca de 15 praças, minuto a minuto. Ou, mesmo, o fato de aparecer entre os trend topics do Twitter por dias a fio. Não! É o público que assim o quer! É o clamor da nova geração cultural sendo ouvido! Meu caro leitor, perdoe-me a carga de ironia contida nesse parágrafo, mas será que já nos questionamos, em algum momento, como ocorre o percurso de toda a carga informativa e/ou de entretenimento que deságua sobre nós?
A ingenuidade parece nos acompanhar desde o nosso “achado”, em 1500... Passando pelos conceitos que fomos formando acerca de cada período histórico. O mais recente deles? Globalização (olha... até aqui a Globo não se deixa esquecer... hahaha). Eu acho o máximo estar informada do que ocorre no extremo do mundo, em tempo real. Você também deve achar, afinal, foi o desenvolvimento da própria humanidade que demandou pela eliminação das fronteiras, geográficas e comunicacionais, certo? Para isso, recorro à oportuna e chocante provocação feita pelo saudoso Milton Santos, em sua obra Por uma Outra Globalização. De onde partiu essa maravilha dos anos 80? Por que tantos esforços despendidos para que eu possa, daqui, sem intermédios de importadores, receber um item comprado na China? Apesar de o autor trazer algumas respostas - veja um documentário interessante, sobre o autor e sua obra, aqui -, recomendo que tente achar as suas próprias, mas tente deixar de lado a ingenuidade, que insiste em nos acalmar e conferir tanta credibilidade ao que recebemos, a ponto de avançarmos sobre o vilão da novela, que caminha, passivamente, pelo calçadão do Leblon.

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Calma, caro leitor, o objetivo não é assustá-lo. Muito menos, desiludi-lo. Nem tudo é uma pseudo autonomia! Ainda estamos no comando! Veja o avanço das plataformas de streaming, por exemplo. Um “mundo” de programação ali, pronta para o seu deleite, à livre escolha e ainda trazendo o plus das produções interativas, nas quais você decide os rumos do personagem. Não é o máximo?

Para provar isso, abra seu navegador, vá até a Netflix e escolha o filme Black Mirror:Bandersnatch. Nele, quem manda é você. Experimente! Ah, não fique chateado se a Netflix interferir, um pouquinho, no seu poder de escolha. Não é nada pessoal... É em nome de um bem maior.


4 comentários:

  1. Essa sua postagem vai gerar discussões que acabam no colonialismo, ainda não fomos descolonizados, basta lermos Fanon, e ainda esperamos a realeza nos dizer o que é bom, hoje esse papel é suprido pela mídia, já foi o rádio, agora a TV, mas a autonomia é caracteristica de um povo descolonizado, o que ainda não alcançamos. Lamentavelmente.

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  2. Olá Elisabeth
    e não podemos esquecer que esse poderio da Globo também está presente nas mídias digitais, com o famoso portal globo.com, com os aplicativos para dispositivos móveis, que continuam nos mantendo atrelados aos seus conteúdos. Já nos perguntamos por que seu sevidor não se encontra no Brasil?
    Sim, precisamos compreender o lugar ocupado pela emissora na cultura de nosso tempo...

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    1. Exatamente, prof. Eles contam, inclusive, com domínio próprio, o "ponto globo"; única emissora a fazer isso.
      Também são donos de uma infinidade de outras mídias, nos cercando, incansavelmente.
      Ótima a provocação do servidor...

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