Ao deparar-me com os termos “colaboração” e “convergência”, minha mente começou a elucubrar ideias, que foram alimentadas por picos de reação, durante a leitura dos textos que trataram de ambos. Mas algo me incomodava, porque havia sido o meu primeiro pensamento, ainda antes da leitura. Sabe quando alguém menciona um termo e você, automaticamente, o associa a algo? Foi isso que aconteceu... Mas, confesso, achei inadequado escrever sobre isso e mergulhei na leitura, esperando o que ela me diria.
Mas a ideia continuava lá, martelando. Quase dizendo: “escreve
sobre mim, vai...”.
Antes de convidá-lo a esta leitura, deixe-me, apresentar os
conceitos nos quais me amparo, para produzir essa reação, que cheguei a pensar
ser uma divagação. Veja o conceito de “colaboração online”, aqui e “convergência digital”, aqui. Sigamos...
Mergulhando nas leituras sobre colaboração online, fui
remetida às campanhas de financiamento das quais participei, à polêmica da
plataforma Sci Hub, à novidade da Rede de Colaboração, inserida na plataforma
Lattes, aos esforços em redes sociais para viabilizar projetos... Passeei.
Muito. Mas a bendita “ideia” inicial não dissipava... Então, é sobre ela que
escrevo.
Deixo claro que não é a visão “macro” do que seja
colaboração, mas amparei-me, primordialmente, em Foucault e sua Microfísica do Poder, me acalmando, ao querer escrever sobre algo tão “micro”. Para Foucault, as
relações de poder não se manifestavam, apenas, em sua forma macro ou
institucional, mas em pequenas ações cotidianas, periféricas, que muito
revelavam. Apropriando-me desse conceito, percebi que não precisei recorrer a
grandes ações de colaboração online, se poderia recorrer ao meu Whatsapp. Sim!
Meu exemplo de rede de colaboração estava ali! Especificamente, em um grupo,
convenientemente, denominado Estado da Arte.
O grupo surgiu a partir de uma inquietação, na turma do
mestrado da Faculdade de Ciências Contábeis-UFBA. Particularmente, eu me sentia
incomodada pela falta de interação entre a turma, sempre em um silêncio de
ideias enlouquecedor. Pensava: não é assim que visualizo a Academia. Por que
ninguém compartilha projetos? Por que não propomos pesquisas? Por que, nem
mesmo, discutimos durante as aulas? Estou no lugar errado!
Ao interagir com Jorge, Thiago e Sylvia, veio o alento: nem
tudo está perdido! Por iniciativa do primeiro, surgiu o Estado da Arte. A
partir dali, construiríamos um círculo colaborativo que já rendeu os primeiros
frutos: ideias para submissão de artigos em parceria (inclusive, com mapeamento
de periódicos e eventos), criação de projetos de pesquisa, apoio profissional,
pessoal e acadêmico, compartilhamento de conteúdo didático e discussões das
mais variadas, que têm ampliado a visão acadêmica, além de proporcionar
substancial aproveitamento dos encontros presenciais.
Durante as conversas no grupo, vimos percebendo o quanto
podemos avançar, o quanto é possível construir algo maior do que nós mesmos, a
partir de ideias que surgem, onde quer que estejamos, e que, automaticamente, ganham
a rede do aplicativo e já começam a amadurecer, ali, naquela “mesa redonda” conectada.
O Estado da Arte tem rendido frutos. Tem sido também um local
online de amadurecimento e reflexão,
derrubando o mito de que a produção intelectual é isolada e mostrando que a
colaboração pode, sim, fomentar a criatividade. Tem sido um oxigênio, em tempos
em que nos sufocamos com ideias nunca externadas.
Compartilho um pequeno trecho (abaixo, em amarelo) do professor Marcos Ramon Gomes
Ferreira, doutor em Comunicação, pela UNB, citando Clay Shirky e sua obra A Cultura
da Participação: criatividade e
generosidade no mundo conectado,
que pode ser lida, gratuitamente, graças a um processo colaborativo, aqui.
Nesse sentido, o que a
colaboração online permite é uma potencialização de algo que já ocorre no
cotidiano das pessoas, permitindo que elas colaborem ainda mais e de forma mais
recorrente e consciente. Contudo, apesar do exemplo mencionado, existe outra
percepção, bem recorrente no senso comum, sobre o funcionamento do trabalho,
especialmente daquele essencialmente intelectual. De acordo com essa visão o
trabalho científico assim como o trabalho artístico envolvem apenas tarefas
solitárias, onde prevalece unicamente a genialidade do indivíduo. Esse conceito
de gênio, em seu aspecto mais romântico, considerando os cientistas e artistas
como pessoas predestinadas a verem o mundo de uma maneira que ninguém mais vê,
é ainda disseminado no imaginário popular. De acordo com Shirky,
podemos ver os rastros da colaboração em tudo que quisermos:
Michelangelo colocou assistentes para pintar parte
do teto da capela Sistina. Thomas Edison, que registrou mais de mil patentes em
seu nome, administrava uma equipe de cerca de vinte pessoas. Até a escrita de
um livro, um empreendimento notoriamente solitário, envolve o trabalho de
preparadores de originais, editores e designers (...) (SHIRKY, 2012, p.19).
Esses indícios de que
a colaboração está por toda parte se contrapõem ao modelo que mencionamos
anteriormente, do trabalho solitário e isolado na produção de conhecimento. E
se por tanto tempo mantivemos essa mesma compreensão das coisas, o que estaria
mudando agora, para que passássemos a valorizar o trabalho intelectual
coletivo?
E você, a quantas mãos faz arte?








