Minha primeira experiência com a oferta de graduação, estruturada em formato EaD, foi numa instituição à qual chamarei de ABC, em 2017, ministrando aulas nos cursos de bacharelado em Ciências Contábeis e Pedagogia, além de uma turma de pós-graduação Interdisciplinar. De início, algumas questões já me incomodavam bastante, na ABC... Aspectos direcionais e pedagógicos eram motivos de constante discussão entre mim e alguns outros colegas, cujas críticas eram semelhantes.
O formato já era, a meu ver, uma afronta à formação que eu havia mentalizado, como sendo a mais adequada aos futuros profissionais que eu estaria ajudando a formar. As aulas presenciais eram mensais e por disciplina, sendo que nos reuníamos com as turmas durante o sábado e o domingo e, a cada final de semana, eu tentava focar esse pensamento: “esta será a melhor aula que eu posso entregar e eles serão os melhores profissionais, em suas áreas”.
Os materiais que eram enviados, previamente, pela
coordenação, aos alunos e professores (incompletos, em todas as ocasiões) eram,
na maioria das vezes, deixados de lado, nas minhas aulas, e partíamos para “beber
das fontes”, em cada disciplina. Sem peso algum na consciência, disponibilizava
os arquivos de livros de que dispunha e tentávamos esticar aqueles finais de semana
ao máximo, colocando todo o nosso empenho (meu e dos alunos) em fazer daquele
encontro produtivo e uma porta para continuar na caminhada, rumo à formação,
tentando vencer as barreiras já, naturalmente, impostas. Assim acontecia. Foram
4 disciplinas na turma de Contábeis e 2 em duas turmas de Pedagogia.
Especialmente, com a turma de Contábeis, fomos criando uma relação de
confiança, regada a discussões técnicas e aprofundando o máximo que aqueles 1
dia e meio permitiam.
Ao relacionarmos a realidade daquelas turmas da Instituição
ABC com as questões de políticas públicas e sistema de ensino, percebemos o
quão altas são essas barreiras, que esses alunos estão transpondo, até hoje. A
Instituição atua em uma cidade cuja oferta de ensino superior, presencial, é
inexistente, mesmo por instituições privadas, o que leva a maioria dos
graduandos aos formatos EaD ou ao enfrentamento de viagens de ida e volta, até
a cidade mais próxima, que oferte. Viagens essas, inclusive, que só são
possíveis quando há oferta de transporte pela prefeitura; algo nem sempre
realidade. Novamente, perguntamos por onde andam as políticas públicas...
Mas, felizmente, nem tudo é lamentação, nesse meu breve
relato. Como disse, das 4 turmas pelas quais passei, a de Contábeis resultou em maior
contato e trocas (por motivos óbvios). Essa turma, que começou com cerca de 25
matriculados e, na reta final do curso, chegou a, apenas 7 (sete), me trazia orgulho,
a cada conquista. Cada vez que traziam uma situação prática e relacionavam com
o que víamos em sala de aula e cada vez que me “provocavam”, por e-mail ou
Whatsapp, com uma dúvida, gerada a partir da leitura mais aprofundada dos
conteúdos. Entre esses 7 alunos, está Maurício*, um aluno já maduro, um pouco
mais velho que eu e entre os mais aplicados da sala, além de ser o que mais se
utilizava dos meus canais de contato...rsrs. Apesar de orientação expressa da
Instituição ABC para que os alunos não nos “importunassem” após a finalização
das disciplinas, pois, segundo posicionamento da coordenação, nosso vínculo duraria,
apenas, o final de semana de encontros, eu não sou prestadora de serviços. Sou
professora. Escolhi isso e, junto, escolhi o vínculo com meus alunos, pelo
tempo que eles precisem.
Entretanto, devemos refletir no sentido de que Maurício é
uma exceção. Inspirador, mas ainda exceção. Nem todos conseguem transformar as
dificuldades em força para seguir em frente e nós, como educadores, não podemos
esperar que todos os alunos precisem passar por tudo o que Maurício passou para
alcançarem a educação, direito constitucionalmente garantido.
Sigo na torcida, pelo caminho de todos os meus alunos e
agradeço ao Maurício pela bela história, que ainda trará muitas conquistas.
*Maurício é o nome real e o mesmo autorizou sua menção, nesta postagem.

Bacana a história de Maurício, mas como você mesma afirmou, uma exceção. O problema é que Maurício acaba se tornando um ícone, um exemplo para culpabilizar os demais, que não conseguiram trilhar os mesmos caminhos que ele. Com isso, a instituição se desresponsabiliza da formação dos sujeitos, atribuindo exclusivamente a eles a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso. E essa prática é perversa, pois sabemos que os modelos adotados são para poucos, busca seletividade, embora mascarada com o discurso das oportunidades, da inclusão, da democratização. É fundamental fazer a crítica!
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