sábado, 29 de junho de 2019

O que esperar da "nova escola"?


Global world telecommunication network connected around planet Earth, concept about internet and worldwide communication technology for finance, blockchain cryptocurrency or IoT, image from NASA

Para que você compreenda melhor o que virá a seguir, caro leitor, esse parágrafo o ajudará, para seguirmos em mais um bate-papo:
Na semana em que iríamos discutir a relação com as TIC nos diversos estágios da vida e o direito à comunicação, as leituras enveredaram para uma abordagem que muito me atrai e comunicavam-se, absurdamente. Mas, em especial, destacarei o texto O Marco Civil da Internet - desafios para a educação (PRETTO e BONILLA, 2014), pois, além do tom provocativo, as lembranças para as quais o texto me remeteu me balançaram bastante. O texto traz um histórico das redes, da internet, regulação e, claro, abordagens legais, no sentido do direito à comunicação e ao acesso à internet.
Mas meu estalo de hoje foi graças à última parte, na qual os autores discutem as potencialidades e os desafios para a educação. Minha história envolve três realidades escolares: uma em nível médio (particular), a segunda, técnico (formação gratuita) e a última, médio/técnico (pública estadual). Guardem essa informação!

Equipe 1º lugar Copa Mundial de Robótica - EUA, 2018
Durante um tempo, ministrei aulas no SENAI, situado na cidade de Barreiras, extremo oeste da Bahia e região conhecida por ser o segundo maior celeiro agrícola do país. Pois bem... Dentro do mesmo complexo do Sistema Fieb, contava-se com vários prédios (IEL, SESI, SENAI, etc). No prédio ao lado de onde eu ministrava, funcionava a escola de ensino médio do SESI. Ambos são conhecidos pela excelência no ensino e desenvolvem uma série de projetos de inovação tecnológica cujo reconhecimento já ultrapassou as fronteiras do país (estudantes do SESI dominaram o maior torneio de Robótica do mundo, em 2018, levando o 1 e o 3 lugares. Veja mais aqui). Lá, os alunos têm a criatividade estimulada e desenvolvem programas, protótipos e robôs, em laboratórios cuja estrutura é bem completa. A robótica educacional está no SESI há mais de 10 anos. O desenvolvimento é estimulado para as necessidades do mercado, especialmente, e eles criam soluções dignas dos vários prêmios que já receberam.

Equipe 3º lugar Copa Mundial de Robótica - EUA, 2018
Apesar de ser professora do SENAI (ensino técnico), eu ficava sabendo dos projetos dos meninos do SESI; em parte por buscar informação, em parte pelo tom meio “invejoso” com o qual meus alunos me contavam sobre o mais novo lançamento. Sabe inveja que adolescente tem do “primo rico”? Essa mesma... Mas por que isso? Veja bem, apesar da estrutura interessante, muitos dos meus alunos faziam parte do programa de formação gratuita do Sistema Fieb, que oferece cursos (muito bons) para jovens de 14 a 21 anos. Por ser gratuita, essa modalidade não tem acesso a toooooodaaaaaa a estrutura dos laboratórios, entendem? Naturalmente, pela idade, eles se sentiam preteridos e adorariam “mexer com robôs”, do mesmo jeito que os alunos do SESI.

Site Flash ad Network: a rapidez do seu anúncio aqui!
Infelizmente, não era possível. Era outra proposta... Nunca entramos no laboratório do SESI. Mas vocês pensam que alguém apaga a vontade de criar que essa galera tem? Nunca! Eles se viram como podem. Um dos alunos, Gustavo, aprendeu fazer negócios online, sozinho; empreendia e criava; descobria aplicativos mais facilmente do que meu marido descobre lanche na geladeira. Outro, Werliarlison, sonhava em trabalhar na Sony ou no Vale do Silício; tinha um raciocínio lógico absurdo; fera no xadrez, metódico e tímido. E a Flávia? Mergulhou no desafio de ser youtuber e eu a chamava de “rabugenta digital” (A Flávia é essa de casaco, ao lado, e o Werliarlison é o de casaco, na foto abaixo).

P-cure: a natureza em prol da vida.
No final do bimestre, propus um desafio (disciplina Gestão Organizacional): criarem, em equipes, 4 empresas, sendo os segmentos de indústria, comércio, serviços e agronegócios. Deveria ter:
- Nome
- Slogan
- Logomarca
- Diretrizes (missão, visão, valores, políticas de qualidade)
- Estrutura organizacional (departamentalização, organograma)
- Elaboração do Regimento Interno

Drogaria Leggall: Venha! Menor preço garantido.
Mal sabia eu o que receberia... A equipe de serviços criou um site para anúncios, completo! Com todas as funcionalidades, acessos, formulários, e-mail de contato e uscambau! A equipe do agronegócio? Propôs o cultivo de plantas que tivessem poder cicatrizante para ajudar vítimas de queimaduras e localizou todas as possíveis culturas, pesquisou solo adequado, condições para cultivo e tudo o necessário para a viabilidade. A indústria propôs uma fábrica de chocolates (com site ativo e tudo) e o Comércio propôs uma drogaria a preços populares. Os projetos deveriam ficar prontos em 2 meses e cabe destacar que eu não intervi em nada na concepção da ideia; apenas fiz o acompanhamento, dando o suporte nas questões técnicas e pedagógicas. Toda a criatividade foi deles. Até as marcas eles desenharam e vetorizaram, brother!

Chocolates Adrifel: ser feliz não custa caro.
Essa foi apenas uma das turmas que me surpreendeu, pois teve a turma que montou um protótipo de câmera filmadora, usando apenas peças de papelão; além da outra turma que montou uma operação de fast food completa, com receitas originais e sanduíche artesanal, em 2 horas, dentro da sala de aula. Essas eu deixarei para um próximo relato... rsrs.

Mas, como eu sinalizei lá em cima, falta o caso da escola pública estadual. Aqui, eu não tenho vivência. O que sei vem dos relatos do meu marido (professor da rede estadual) e dos informes aos quais tenho acesso. Lendo o texto, eu lembrei do que vem ocorrendo na rede de ensino médio/técnico, em cujas escolas os alunos e professores vêm lutando contra toda a falta de estrutura/incentivo/recursos e realizado projetos maravilhosos, como o estudo de programação, facilitado através da  Placa Arduíno, usada no letramento digital de estudantes. Através do estudo de programação e inteligência artificial, surgiram projetos para redução da poluição luminosa, no município de Teixeira de Freitas, ou o Minitrator Agrofamília, destinado ao pequeno produtor. Esses e outros projetos podem ser consultados aqui e fazem parte do Ciência na Escola.

Tailan e Douglas. CETEP Bacia do Rio Grande:
aproveitamento do caroço de manga.
Anualmente, as escolas estaduais realizam Feiras de Ciências, onde expõem suas criações e soluções para as comunidades e o planeta. Uma equipe do CETEP de Barreiras-BA, entre outras soluções, descobriu a utilidade do caroço de manga, para a produção de farinha, óleo e manteiga. E uma equipe da cidade de Valente-BA criou o Smartcam: Dispositivo de segurança para ultrapassagem, conquistando o Certificado de Incentivo à Pesquisa Tecnológica e Científica da Associação Brasileira de Incentivo Tecnológico e Científico (Abritec), na 16ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace)em 2018, onde outras escolas estaduais também foram premiadas.

Desvendando as regiões da Bahia através da criação de mangás
Projeto do Colégio Edvaldo Brandão Correia, de Salvador.
Tem muita coisa acontecendo... Mas esse cenário ainda pode melhorar (precisa, aliás!). Esses exemplos são frutos de muito esforço, por parte de professores, alunos e equipe pedagógica, que superam dificuldades diárias (alguns alunos fazem a única refeição do dia na escola, por exemplo) e criam soluções para o mundo! As tecnologias trouxeram uma infinidade de novas possibilidades, abriram novos “mundos” e, aliadas à criatividade desses jovens, têm mudado a vida de muita gente!

Diverse kindergarten students learning energy producer from solar windmill in science class
Lembram que pedi para vocês guardarem a informação sobre as 3 realidades? Havia um motivo: o foco da criação. O SESI é uma escola particular, na qual os alunos são estimulados a desenvolverem soluções para o mercado. Já nas realidades dos alunos da modalidade gratuita do SENAI e os da rede pública estadual, eles passam por um processo criativo mais livre e, quase sempre, desenvolvem soluções para as comunidades, região, planeta!
Ou seja, caro leitor, o capitalismo pode até mandar em muita coisa, mas, na cabeça desses jovens, ainda não!


*Todas as imagens são de domínio público e as fotos em sala de aula são autorais e com autorização para registro.

Um comentário:

  1. Que experiências fantásticas! É isso, na liberdade (de professores e alunos), as ideias emergem, as inovações são produzidas, o conhecimento se alastra e podemos tornar o mundo melhor. Por isso precisamos continuar defendendo a educação pública, o conhecimento aberto, a colaboração e a liberdade de pensamento e de ação. Não basta termos leis para assegurar nossos direitos, eles precisam de ações cotidianas para manter-se "vivos". Avante!

    ResponderExcluir