
Para que você compreenda melhor o que virá a seguir, caro
leitor, esse parágrafo o ajudará, para seguirmos em mais um bate-papo:
Na semana em que iríamos discutir a relação com as TIC nos
diversos estágios da vida e o direito à comunicação, as leituras enveredaram
para uma abordagem que muito me atrai e comunicavam-se, absurdamente. Mas, em
especial, destacarei o texto O Marco Civil da Internet - desafios para a educação (PRETTO e BONILLA, 2014), pois, além do tom provocativo,
as lembranças para as quais o texto me remeteu me balançaram bastante. O texto
traz um histórico das redes, da internet, regulação e, claro, abordagens
legais, no sentido do direito à comunicação e ao acesso à internet.
Mas meu estalo de hoje foi graças à última parte, na qual os
autores discutem as potencialidades e os desafios para a educação. Minha
história envolve três realidades escolares: uma em nível médio (particular), a
segunda, técnico (formação gratuita) e a última, médio/técnico (pública
estadual). Guardem essa informação!
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| Equipe 1º lugar Copa Mundial de Robótica - EUA, 2018 |
Durante um tempo, ministrei aulas no SENAI, situado na
cidade de Barreiras, extremo oeste da Bahia e região conhecida por ser o
segundo maior celeiro agrícola do país. Pois bem... Dentro do mesmo complexo do
Sistema Fieb, contava-se com vários prédios (IEL, SESI, SENAI, etc). No prédio
ao lado de onde eu ministrava, funcionava a escola de ensino médio do SESI.
Ambos são conhecidos pela excelência no ensino e desenvolvem uma série de
projetos de inovação tecnológica cujo reconhecimento já ultrapassou as
fronteiras do país (estudantes do SESI dominaram o maior torneio de Robótica do mundo, em 2018, levando o 1 e o 3 lugares. Veja mais aqui). Lá, os alunos têm a criatividade estimulada
e desenvolvem programas, protótipos e robôs, em laboratórios cuja estrutura é
bem completa. A robótica educacional está no SESI há mais de 10 anos. O
desenvolvimento é estimulado para as necessidades do mercado, especialmente, e eles
criam soluções dignas dos vários prêmios que já receberam.
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| Equipe 3º lugar Copa Mundial de Robótica - EUA, 2018 |
Apesar de ser professora do SENAI (ensino técnico), eu
ficava sabendo dos projetos dos meninos do SESI; em parte por buscar
informação, em parte pelo tom meio “invejoso” com o qual meus alunos me contavam
sobre o mais novo lançamento. Sabe inveja que adolescente tem do “primo rico”?
Essa mesma... Mas por que isso? Veja bem, apesar da estrutura interessante, muitos
dos meus alunos faziam parte do programa de formação gratuita do Sistema Fieb,
que oferece cursos (muito bons) para jovens de 14 a 21 anos. Por ser gratuita,
essa modalidade não tem acesso a toooooodaaaaaa a estrutura dos laboratórios,
entendem? Naturalmente, pela idade, eles se sentiam preteridos e adorariam “mexer
com robôs”, do mesmo jeito que os alunos do SESI.
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| Site Flash ad Network: a rapidez do seu anúncio aqui! |
Infelizmente, não era possível. Era outra proposta... Nunca
entramos no laboratório do SESI. Mas vocês pensam que alguém apaga a vontade de
criar que essa galera tem? Nunca! Eles se viram como podem. Um dos alunos,
Gustavo, aprendeu fazer negócios online, sozinho; empreendia e criava;
descobria aplicativos mais facilmente do que meu marido descobre lanche na
geladeira. Outro, Werliarlison, sonhava em trabalhar na Sony ou no Vale do Silício; tinha um raciocínio lógico absurdo; fera no
xadrez, metódico e tímido. E a Flávia? Mergulhou no desafio de ser youtuber e
eu a chamava de “rabugenta digital” (A Flávia é essa de casaco, ao lado, e o Werliarlison é o de casaco, na foto abaixo).
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| P-cure: a natureza em prol da vida. |
No final do bimestre, propus um desafio (disciplina Gestão Organizacional): criarem, em equipes, 4 empresas, sendo os segmentos de
indústria, comércio, serviços e agronegócios. Deveria ter:
- Nome
-
Slogan
-
Logomarca
-
Diretrizes (missão, visão, valores, políticas de qualidade)
- Estrutura organizacional (departamentalização, organograma)
-
Elaboração do Regimento Interno
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| Drogaria Leggall: Venha! Menor preço garantido. |
Mal sabia eu o que receberia... A equipe de serviços criou
um site para anúncios, completo! Com todas as funcionalidades,
acessos, formulários, e-mail de contato e uscambau! A equipe do agronegócio? Propôs
o cultivo de plantas que tivessem poder cicatrizante para ajudar vítimas de
queimaduras e localizou todas as possíveis culturas, pesquisou solo adequado,
condições para cultivo e tudo o necessário para a viabilidade. A indústria propôs uma fábrica de chocolates (com site ativo e tudo) e o Comércio propôs uma drogaria a preços populares. Os projetos
deveriam ficar prontos em 2 meses e cabe destacar que eu não intervi em nada na
concepção da ideia; apenas fiz o acompanhamento, dando o suporte nas questões
técnicas e pedagógicas. Toda a criatividade foi deles. Até as marcas eles
desenharam e vetorizaram, brother!
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| Chocolates Adrifel: ser feliz não custa caro. |
Essa foi apenas uma das turmas que me surpreendeu, pois teve
a turma que montou um protótipo de câmera filmadora, usando apenas peças de
papelão; além da outra turma que montou uma operação de fast food completa, com
receitas originais e sanduíche artesanal, em 2 horas, dentro da sala de aula.
Essas eu deixarei para um próximo relato... rsrs.
Mas, como eu sinalizei lá em cima, falta o caso da escola
pública estadual. Aqui, eu não tenho vivência. O que sei vem dos relatos do meu
marido (professor da rede estadual) e dos informes aos quais tenho acesso. Lendo
o texto, eu lembrei do que vem ocorrendo na rede de ensino médio/técnico, em
cujas escolas os alunos e professores vêm lutando contra toda a falta de
estrutura/incentivo/recursos e realizado projetos maravilhosos, como o estudo
de programação, facilitado através da Placa Arduíno, usada no letramento
digital de estudantes. Através do estudo de programação e inteligência
artificial, surgiram projetos para redução da poluição luminosa, no município
de Teixeira de Freitas, ou o Minitrator Agrofamília, destinado ao pequeno
produtor. Esses e outros projetos podem ser consultados aqui e fazem parte do Ciência na Escola.
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| Tailan e Douglas. CETEP Bacia do Rio Grande: aproveitamento do caroço de manga. |
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| Desvendando as regiões da Bahia através da criação de mangás Projeto do Colégio Edvaldo Brandão Correia, de Salvador. |
Tem muita coisa acontecendo... Mas esse cenário
ainda pode melhorar (precisa, aliás!). Esses exemplos são frutos de muito
esforço, por parte de professores, alunos e equipe pedagógica, que superam
dificuldades diárias (alguns alunos fazem a única refeição do dia na escola,
por exemplo) e criam soluções para o mundo! As tecnologias trouxeram uma
infinidade de novas possibilidades, abriram novos “mundos” e, aliadas à
criatividade desses jovens, têm mudado a vida de muita gente!

Lembram que pedi para vocês guardarem a informação sobre as
3 realidades? Havia um motivo: o foco da criação. O SESI é uma escola
particular, na qual os alunos são estimulados a desenvolverem soluções para o
mercado. Já nas realidades dos alunos da modalidade gratuita do SENAI e os da
rede pública estadual, eles passam por um processo criativo mais livre e, quase
sempre, desenvolvem soluções para as comunidades, região, planeta!
Ou seja, caro leitor, o capitalismo pode até mandar em muita
coisa, mas, na cabeça desses jovens, ainda não!
*Todas as imagens são de domínio público e as fotos em sala de aula são autorais e com autorização para registro.








Que experiências fantásticas! É isso, na liberdade (de professores e alunos), as ideias emergem, as inovações são produzidas, o conhecimento se alastra e podemos tornar o mundo melhor. Por isso precisamos continuar defendendo a educação pública, o conhecimento aberto, a colaboração e a liberdade de pensamento e de ação. Não basta termos leis para assegurar nossos direitos, eles precisam de ações cotidianas para manter-se "vivos". Avante!
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