domingo, 10 de março de 2019

O que são Tempo e Espaço quando seguimos perdendo ambos?

Resultado de imagem para modernidade líquida

Desde que conheci, há algum tempo, o conceito de “Modernidade Líquida”, trazido pelo Bauman, não consegui mais olhar os acontecimentos e as pessoas do mesmo modo de outrora. Mas, ao fazer a leitura com o objetivo de capturar “reações” e externá-las, percebi que estas foram tantas, que se eu expusesse todas, você, leitor, certamente, me acharia louca. Confesso que eu mesma me senti assim. Entretanto, considerei uma loucura boa, reflexiva e, sobretudo, provocativa. De modo que me atrevo a expor algumas.

Logo no início, a leitura me remeteu ao círculo de amizades que me rodeia; às conversas e à recorrente alegação de que “fulana não é mais como antes, encontrou novos amigos e sumiu” ou, ainda, “enjoei do meu relacionamento de 6 meses, acho que vou terminar”. Esses dois exemplos desdobraram-se, em minha mente, em sub-reflexões: fazer novos amigos é bom, mas as amizades duradouras estariam perdendo seu espaço? O desejo por novas conexões se realiza em detrimento das anteriores? Postos precisam ser esvaziados para que novos ocupantes sejam instituídos? Perdemos a habilidade da negociação relacional e, por isso, estamos a trocar de companheiros, sempre movidos pelas “borboletas no estômago” e descobertas, típicas da fase inicial? Por que buscamos a novidade do desconhecido, quando, nem mesmo, desvendamos o que ali já estava? Ao relacionar com o “amor cego”, de que Nietzsche tratava, em sua obra O Anticristo, suponho que não estejamos prontos para enxergar as coisas como são e, por isso, relutamos em sair da fase da paixão idealizadora (que, imagino, fosse a real intenção de Nietzsche, ao tratar da fase na qual enxergamos as coisas como elas não são - veja um resumo interessante, aqui) e, então, talvez, essas mudanças não sejam em busca de algo novo, mas da manutenção daquilo que idealizei.

A redução da comunicação nos relacionamentos – familiares, afetivos, fraternos – contribui com a manutenção do que idealizamos. Não conhecer do outro parece trazer menos decepções. E com tantas outras distrações diárias, talvez não sobre tempo, de fato, para essa descoberta. Estamos dispersos do outro, presos em nós; longe do coletivo, presos no individual. Na “modernidade líquida” do meu celular, o mundo é “configurado” por e para mim. Ali, eu me basto. Será?

Os avanços tecnológicos são de suma importância nessa análise, pois há que se questionar o uso que temos feito de todo esse aparato, dotado de potencial inimaginável e capaz de feitos que a mente humana, talvez, nem tenha sido capaz de conceber. A tecnologia reduziu o custo da informação e o tempo necessário para acesso à mesma; possibilitou feitos científicos extraordinários e devolveu esperança à humanidade, em muitas áreas. Mas será que essa velocidade devastadora com a qual a tecnologia nos atingiu veio acompanhada do esclarecimento necessário para manuseio de ferramenta tão poderosa?

Nenhuma descrição de foto disponível.
A difusão do mundo virtual nos proporciona uma infinidade de possibilidades e, entre elas, está a negação do “eu”, através da falsa sensação de anonimato, e isso alerta para um grau de insatisfação, não apenas com o outro, mas consigo mesmo, vide o número de perfis fake criados em redes sociais; alguns, com intuito de vender uma imagem própria que nunca existiu e, provavelmente, nunca será alcançada. A intolerância, além de ser dirigida ao outro, pela sua religião, cor, etnia voltou-se para dentro. Revelamos indivíduos intolerantes consigo. Incapazes de aceitarem-se e, numa busca desesperada para enquadrarem-se nesse “quebra-cabeças” chamado sociedade pós-moderna, criam personagens, personalidades, rostos e corpos, que passam a “vender”, através das redes. Como, em muitos casos, as relações permanecem virtuais por longos períodos ou, até mesmo, dissolvem-se sem nunca terem atingido a esfera do presencial, esse personagem será imortalizado no outro, que nunca terá acesso ao seu intérprete.

Mas isso não será, necessariamente, um problema. Vivemos em e na rede. Nossa rotina virtual adquiriu o status de rotina principal. O “eu” virtual é mais real que o “eu” que está atrás da tela. Isso se torna assustador, pois os “eus” virtuais têm revelado personalidades nocivas, em muitos casos. O desejo por expurgar seja lá o que for tem sobreposto o de lutar juntos pelo avanço, pelo desenvolvimento e, especialmente, pela justiça. A cegueira da Têmis foi substituída pela cegueira do ódio, da vingança e da barbárie, num campo de batalha em que o sangue escorre pelo cabeamento da fibra óptica. Fomos enganados, então? Deram-nos um mundo em uma tela para nos tornarem incapazes de construir um mundo coletivo, fora dela? “Segregar para dominar”, é isso? Até onde temos domínio sobre as “configurações”? Meu avatar é moldado por mim ou pelos algoritmos? Aliás, o que são os algoritmos? Quem os autorizou a saberem mais de mim do que eu mesma?

Imagem relacionada
Entretanto, como já dito, os feitos, que só foram possíveis através do avanço tecnológico, fazem refletir que a tecnologia não seja ruim, em essência, e que esteja, em verdade, respondendo aos estímulos que recebe, por meio do uso que fazemos das suas infinitas possibilidades. Mas, o que vejo, é uma subutilização dessa gama de possibilidades. Fazemos banquetes de “coelhos”,sem nunca termos experimentado o gosto da carne dos “veados e, consequentemente, não temos acesso aos seus benefícios. Nas trocas de energia, predominam as ondas eletromagnéticas e, cada vez menos, as sensoriais. Formamos um imenso “coletivo” virtual, mas adoecemos, sozinhos, em nossas bolhas individuais que, nem sempre, ocupamos por escolha, mas por falta dela. Lembro-me de achar um tanto estranho, na cidade de Santiago, no Chile, praças lotadas, com pessoas dormindo, estudando, fazendo apresentações artísticas, conversando ou, simplesmente, esperando a intrajornada de trabalho e questionei a mim mesma, sem perceber que o tinha feito em voz alta: “quando paramos de ocupar as praças da nossa cidade?”. Até que uma amiga respondeu, ao achar que a indagação tivesse sido para ela: “quando fomos dominados pelo medo de nelas estarmos!”. Como eu não havia pensado nisso antes? Vivemos um paradoxo, onde governantes orgulham-se por exibir praças, maravilhosamente ornamentadas, mas vazias. Espaços feitos para nunca serem ocupados. Mas nós, soteropolitanos, adoramos shoppings centers, sim? Não. Quando dissemos isso? Em que momento afirmamos preferir um edifício absurdamente iluminado, cheio de almas, muitas vezes, vazias em si, respirando ar condicionado, à contemplação do externo, das multicores que as ruas são capazes de formar? Novamente, fomos enganados? Não sei...

O fato é que estamos lá. Exatamente onde querem que estejamos. Diariamente. Mas somos nós quem decidimos ir, correto? Adquirimos objetos nesses centros, de modo desenfreado, porque nós assim o queremos? A resposta pode estar na série de processos judiciais movidos contra os principais players do mercado tecnológico, sob acusação de “obsolescência programada”. Ou em quando achamos vergonhoso portarmos um modelo de smartphone fabricado há 2 anos. Ou quando adquirimos uma TV com tecnologia 4k, quando a mesma ainda nem era capaz de ser utilizada no Brasil, mas o contrato de venda não trazia isso. Aliás, ainda existem “contratos de venda”? Sei que vai parecer delírio, mas, em muitos momentos, durante a “conversa” com Bauman, me senti no Show de Trumam. Ele escapou. Conseguirei o mesmo?

Esses questionamentos trouxeram várias outras ramificações, na minha mente, nos campos social, político... Remeteu-me à formação educacional, por exemplo. Por que estamos tão superficiais no aprendizado? Por que lemos tão pouco sobre quase nada? Paradoxalmente, nunca escrevemos tanto, sobre tanta coisa e interpretamos tão mal. Estamos bombardeados com sofismas que celebram a implantação do ensino médio, integralmente ministrado através de vídeo-aulas, em tempo real, em localidades que, sabidamente, não possuem serviço de internet compatível e, muito menos, estável. Esses mesmos alunos serão acusados, em muitos casos, de não terem se dedicado ao ensino médio, quando suas deficiências forem postas à prova, na Universidade. Mas as estatísticas apontarão para um cenário ideal, de acesso à educação básica e superior. O problema estará resolvido e o governante já pode contar com isso na sua bagagem de benfeitorias realizadas em “tempo recorde”.

Tempo, aliás, tem sido largamente explorado na esfera governamental. Em verdade, a dispensabilidade dele. Ainda é intrigante a capacidade que nossa “decisão democrática” teve de, ao comparar dois possíveis planos de governo, optar pelo falacioso, ofensivo, ilógico, milagroso e, óbvio, imediato; sem muito o que ler, numa espécie de treinamento intensivo da ferramenta WordArt, famosa por suas letras hipnotizantes. O plano concorrente era muito estranho. Apenas letras sóbrias e contendo conceitos de Estado Democrático de Direito, democracia representativa e coletividade. Nenhum meme, nenhum xingamento ou gráficos em “vermelho-sangue”, reportando dados deturpados. Parece não ter se adequado à legião de apressados e pecou por não oferecer o imediatismo ovacionado. Será que quem o elaborou não compreendeu que não temos tempo para dialogar, para colaboração e construção democrática?

No fim, nessa maravilhosa modernidade, na qual vivemos, ganhou o meme. Perdemos nós.

4 comentários:

  1. Olá Elisabeth,
    uauuuu... realmente, uma reação que poderia ser classificada quase como uma explosão!!! É isso, precisamos questionar, pensar... as respostas não precisam ser produzidas de imediato. O importante é perguntar, tensionar.
    Por agora, quero destacar uma frase: "O “eu” virtual é mais real que o “eu” que está atrás da tela" - aqui você deixa implícita uma noção de real e virtual como entidades opostas. Será mesmo? o virtual não é tão real quanto o presencial? Seguimos pensando...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou bem assim, prof... No momento, só tenho uma chuva de perguntas, me enlouquecendo...rsrs.
      Obrigada pela provocação do real x virtual. Ainda estou a martelar sobre isso. No trecho, quis dizer que, talvez, nos apresentemos, na rede, com mais verdade do que o fazemos pessoalmente. Mas, novamente, só um temporal de dúvidas...
      Grande abraço e obrigada!

      Excluir
  2. A idéia de Bauman é bastante ampla, assim como a sociedade. É interessante que conseguimos mostrar nossas inquietações sociais a partir do conceito dele, e no texto percebem-se suas inquietações, que estão em consonância com as principais críticas à sociedade que estamos vivendo, shopping, celular, redes sociais, alter egos, e política, tudo liquído mas não no sentido de fluído que seria positivo, mas no sentido de frágil, até diria volátil.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso, issooo!! Na leitura, muita coisa vai sendo derrubada em nosso colo, ao mesmo tempo. É surreal!
      Obrigada por ter sido o primeiro leitor e, consequentemente, crítico desse desabafo. S2

      Excluir