
Desde que conheci, há algum tempo, o conceito de “Modernidade Líquida”, trazido pelo Bauman, não consegui mais olhar os acontecimentos e as pessoas do mesmo modo de outrora. Mas, ao fazer a leitura com o objetivo de capturar “reações” e externá-las, percebi que estas foram tantas, que se eu expusesse todas, você, leitor, certamente, me acharia louca. Confesso que eu mesma me senti assim. Entretanto, considerei uma loucura boa, reflexiva e, sobretudo, provocativa. De modo que me atrevo a expor algumas.
Logo no início, a leitura me remeteu ao círculo de amizades
que me rodeia; às conversas e à recorrente alegação de que “fulana não é mais
como antes, encontrou novos amigos e sumiu” ou, ainda, “enjoei do meu
relacionamento de 6 meses, acho que vou terminar”. Esses dois exemplos
desdobraram-se, em minha mente, em sub-reflexões: fazer novos amigos é bom, mas
as amizades duradouras estariam perdendo seu espaço? O desejo por novas
conexões se realiza em detrimento das anteriores? Postos precisam ser
esvaziados para que novos ocupantes sejam instituídos? Perdemos a habilidade da
negociação relacional e, por isso, estamos a trocar de companheiros, sempre
movidos pelas “borboletas no estômago” e descobertas, típicas da fase inicial?
Por que buscamos a novidade do desconhecido, quando, nem mesmo, desvendamos o que
ali já estava? Ao relacionar com o “amor cego”, de que Nietzsche tratava, em sua obra O Anticristo,
suponho que não estejamos prontos para enxergar as coisas como são e, por isso,
relutamos em sair da fase da paixão idealizadora (que, imagino, fosse a real
intenção de Nietzsche, ao tratar da fase na qual enxergamos as coisas como elas
não são - veja um resumo interessante, aqui) e, então, talvez, essas mudanças não sejam em busca de algo novo, mas
da manutenção daquilo que idealizei.

A redução da comunicação nos relacionamentos – familiares,
afetivos, fraternos – contribui com a manutenção do que idealizamos. Não
conhecer do outro parece trazer menos decepções. E com tantas outras distrações
diárias, talvez não sobre tempo, de fato, para essa descoberta. Estamos
dispersos do outro, presos em nós; longe do coletivo, presos no individual. Na “modernidade
líquida” do meu celular, o mundo é “configurado” por e para mim. Ali, eu me
basto. Será?
Os avanços tecnológicos são de suma importância nessa
análise, pois há que se questionar o uso que temos feito de todo esse aparato,
dotado de potencial inimaginável e capaz de feitos que a mente humana, talvez,
nem tenha sido capaz de conceber. A tecnologia reduziu o custo da informação e
o tempo necessário para acesso à mesma; possibilitou feitos científicos
extraordinários e devolveu esperança à humanidade, em muitas áreas. Mas será
que essa velocidade devastadora com a qual a tecnologia nos atingiu veio
acompanhada do esclarecimento necessário para manuseio de ferramenta tão
poderosa?

A difusão do mundo virtual nos proporciona uma infinidade de
possibilidades e, entre elas, está a negação do “eu”, através da falsa sensação
de anonimato, e isso alerta para um grau de insatisfação, não apenas com o outro,
mas consigo mesmo, vide o número de perfis fake
criados em redes sociais; alguns, com intuito de vender uma imagem própria que nunca
existiu e, provavelmente, nunca será alcançada. A intolerância, além de ser
dirigida ao outro, pela sua religião, cor, etnia voltou-se para dentro. Revelamos
indivíduos intolerantes consigo. Incapazes de aceitarem-se e, numa busca
desesperada para enquadrarem-se nesse “quebra-cabeças” chamado sociedade
pós-moderna, criam personagens, personalidades, rostos e corpos, que passam a “vender”,
através das redes. Como, em muitos casos, as relações permanecem virtuais por
longos períodos ou, até mesmo, dissolvem-se sem nunca terem atingido a esfera
do presencial, esse personagem será imortalizado no outro, que nunca terá
acesso ao seu intérprete.
Mas isso não será, necessariamente, um problema. Vivemos em
e na rede. Nossa rotina virtual adquiriu o status
de rotina principal. O “eu” virtual é mais real que o “eu” que está atrás da tela.
Isso se torna assustador, pois os “eus” virtuais têm revelado personalidades
nocivas, em muitos casos. O desejo por expurgar seja lá o que for tem
sobreposto o de lutar juntos pelo avanço, pelo desenvolvimento e,
especialmente, pela justiça. A cegueira da Têmis foi substituída pela cegueira
do ódio, da vingança e da barbárie, num campo de batalha em que o sangue
escorre pelo cabeamento da fibra óptica. Fomos enganados, então? Deram-nos um
mundo em uma tela para nos tornarem incapazes de construir um mundo coletivo,
fora dela? “Segregar para dominar”, é isso? Até onde temos domínio sobre as “configurações”?
Meu avatar é moldado por mim ou pelos
algoritmos? Aliás, o que são os algoritmos? Quem os autorizou a saberem mais de
mim do que eu mesma?

Entretanto, como já dito, os feitos, que só foram possíveis através
do avanço tecnológico, fazem refletir que a tecnologia não seja ruim, em
essência, e que esteja, em verdade, respondendo aos estímulos que recebe, por
meio do uso que fazemos das suas infinitas possibilidades. Mas, o que vejo, é
uma subutilização dessa gama de possibilidades. Fazemos banquetes de “coelhos”,sem nunca termos experimentado o gosto da carne dos “veados” e, consequentemente,
não temos acesso aos seus benefícios. Nas trocas de energia, predominam as
ondas eletromagnéticas e, cada vez menos, as sensoriais. Formamos um imenso “coletivo”
virtual, mas adoecemos, sozinhos, em nossas bolhas individuais que, nem sempre,
ocupamos por escolha, mas por falta dela. Lembro-me de achar um tanto estranho,
na cidade de Santiago, no Chile, praças lotadas, com pessoas dormindo,
estudando, fazendo apresentações artísticas, conversando ou, simplesmente,
esperando a intrajornada de trabalho e questionei a mim mesma, sem perceber que
o tinha feito em voz alta: “quando paramos de ocupar as praças da nossa cidade?”.
Até que uma amiga respondeu, ao achar que a indagação tivesse sido para ela: “quando
fomos dominados pelo medo de nelas estarmos!”. Como eu não havia pensado nisso
antes? Vivemos um paradoxo, onde governantes orgulham-se por exibir praças, maravilhosamente ornamentadas, mas vazias. Espaços feitos para nunca serem
ocupados. Mas nós, soteropolitanos, adoramos shoppings centers, sim? Não. Quando dissemos isso? Em que momento
afirmamos preferir um edifício absurdamente iluminado, cheio de almas, muitas
vezes, vazias em si, respirando ar condicionado, à contemplação do externo, das
multicores que as ruas são capazes de formar? Novamente, fomos enganados? Não
sei...
O fato é que estamos lá. Exatamente onde querem que
estejamos. Diariamente. Mas somos nós quem decidimos ir, correto? Adquirimos
objetos nesses centros, de modo desenfreado, porque nós assim o queremos?
A resposta pode estar na série de processos judiciais movidos contra os
principais players do mercado
tecnológico, sob acusação de “obsolescência programada”. Ou em quando achamos
vergonhoso portarmos um modelo de smartphone
fabricado há 2 anos. Ou quando adquirimos uma TV com tecnologia 4k, quando a
mesma ainda nem era capaz de ser utilizada no Brasil, mas o contrato de venda
não trazia isso. Aliás, ainda existem “contratos de venda”? Sei que vai parecer
delírio, mas, em muitos momentos, durante a “conversa” com Bauman, me senti no Show de Trumam. Ele escapou. Conseguirei
o mesmo?

Esses questionamentos trouxeram várias outras ramificações,
na minha mente, nos campos social, político... Remeteu-me à formação
educacional, por exemplo. Por que estamos tão superficiais no aprendizado? Por
que lemos tão pouco sobre quase nada? Paradoxalmente, nunca escrevemos tanto,
sobre tanta coisa e interpretamos tão mal. Estamos bombardeados com sofismas
que celebram a implantação do ensino médio, integralmente ministrado através de vídeo-aulas, em tempo real, em localidades que, sabidamente, não possuem serviço de internet
compatível e, muito menos, estável. Esses mesmos alunos serão acusados, em
muitos casos, de não terem se dedicado ao ensino médio, quando suas
deficiências forem postas à prova, na Universidade. Mas as estatísticas
apontarão para um cenário ideal, de acesso à educação básica e superior. O
problema estará resolvido e o governante já pode contar com isso na sua bagagem
de benfeitorias realizadas em “tempo recorde”.
Tempo, aliás, tem sido largamente explorado na esfera
governamental. Em verdade, a dispensabilidade dele. Ainda é intrigante a
capacidade que nossa “decisão democrática” teve de, ao comparar dois possíveis
planos de governo, optar pelo falacioso, ofensivo, ilógico, milagroso e, óbvio,
imediato; sem muito o que ler, numa espécie de treinamento intensivo da
ferramenta WordArt, famosa por suas
letras hipnotizantes. O plano concorrente era muito estranho. Apenas letras
sóbrias e contendo conceitos de Estado Democrático de Direito, democracia
representativa e coletividade. Nenhum meme,
nenhum xingamento ou gráficos em “vermelho-sangue”, reportando dados
deturpados. Parece não ter se adequado à legião de apressados e pecou por não
oferecer o imediatismo ovacionado. Será que quem o elaborou não compreendeu que
não temos tempo para dialogar, para colaboração e construção democrática?
No fim, nessa maravilhosa modernidade, na qual vivemos,
ganhou o meme. Perdemos nós.
Olá Elisabeth,
ResponderExcluiruauuuu... realmente, uma reação que poderia ser classificada quase como uma explosão!!! É isso, precisamos questionar, pensar... as respostas não precisam ser produzidas de imediato. O importante é perguntar, tensionar.
Por agora, quero destacar uma frase: "O “eu” virtual é mais real que o “eu” que está atrás da tela" - aqui você deixa implícita uma noção de real e virtual como entidades opostas. Será mesmo? o virtual não é tão real quanto o presencial? Seguimos pensando...
Estou bem assim, prof... No momento, só tenho uma chuva de perguntas, me enlouquecendo...rsrs.
ExcluirObrigada pela provocação do real x virtual. Ainda estou a martelar sobre isso. No trecho, quis dizer que, talvez, nos apresentemos, na rede, com mais verdade do que o fazemos pessoalmente. Mas, novamente, só um temporal de dúvidas...
Grande abraço e obrigada!
A idéia de Bauman é bastante ampla, assim como a sociedade. É interessante que conseguimos mostrar nossas inquietações sociais a partir do conceito dele, e no texto percebem-se suas inquietações, que estão em consonância com as principais críticas à sociedade que estamos vivendo, shopping, celular, redes sociais, alter egos, e política, tudo liquído mas não no sentido de fluído que seria positivo, mas no sentido de frágil, até diria volátil.
ResponderExcluirIsso, issooo!! Na leitura, muita coisa vai sendo derrubada em nosso colo, ao mesmo tempo. É surreal!
ExcluirObrigada por ter sido o primeiro leitor e, consequentemente, crítico desse desabafo. S2