segunda-feira, 15 de abril de 2019

Um quadro a quantas mãos?

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Ao deparar-me com os termos “colaboração” e “convergência”, minha mente começou a elucubrar ideias, que foram alimentadas por picos de reação, durante a leitura dos textos que trataram de ambos. Mas algo me incomodava, porque havia sido o meu primeiro pensamento, ainda antes da leitura. Sabe quando alguém menciona um termo e você, automaticamente, o associa a algo? Foi isso que aconteceu... Mas, confesso, achei inadequado escrever sobre isso e mergulhei na leitura, esperando o que ela me diria.

Mas a ideia continuava lá, martelando. Quase dizendo: “escreve sobre mim, vai...”.

Antes de convidá-lo a esta leitura, deixe-me, apresentar os conceitos nos quais me amparo, para produzir essa reação, que cheguei a pensar ser uma divagação. Veja o conceito de “colaboração online, aqui e “convergência digital”, aqui. Sigamos...

Mergulhando nas leituras sobre colaboração online, fui remetida às campanhas de financiamento das quais participei, à polêmica da plataforma Sci Hub, à novidade da Rede de Colaboração, inserida na plataforma Lattes, aos esforços em redes sociais para viabilizar projetos... Passeei. Muito. Mas a bendita “ideia” inicial não dissipava... Então, é sobre ela que escrevo.

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Deixo claro que não é a visão “macro” do que seja colaboração, mas amparei-me, primordialmente, em Foucault e sua Microfísica do Poder, me acalmando, ao querer escrever sobre algo tão “micro”. Para Foucault, as relações de poder não se manifestavam, apenas, em sua forma macro ou institucional, mas em pequenas ações cotidianas, periféricas, que muito revelavam. Apropriando-me desse conceito, percebi que não precisei recorrer a grandes ações de colaboração online, se poderia recorrer ao meu Whatsapp. Sim!

Meu exemplo de rede de colaboração estava ali! Especificamente, em um grupo, convenientemente, denominado Estado da Arte.

O grupo surgiu a partir de uma inquietação, na turma do mestrado da Faculdade de Ciências Contábeis-UFBA. Particularmente, eu me sentia incomodada pela falta de interação entre a turma, sempre em um silêncio de ideias enlouquecedor. Pensava: não é assim que visualizo a Academia. Por que ninguém compartilha projetos? Por que não propomos pesquisas? Por que, nem mesmo, discutimos durante as aulas? Estou no lugar errado!

Ao interagir com Jorge, Thiago e Sylvia, veio o alento: nem tudo está perdido! Por iniciativa do primeiro, surgiu o Estado da Arte. A partir dali, construiríamos um círculo colaborativo que já rendeu os primeiros frutos: ideias para submissão de artigos em parceria (inclusive, com mapeamento de periódicos e eventos), criação de projetos de pesquisa, apoio profissional, pessoal e acadêmico, compartilhamento de conteúdo didático e discussões das mais variadas, que têm ampliado a visão acadêmica, além de proporcionar substancial aproveitamento dos encontros presenciais.
Durante as conversas no grupo, vimos percebendo o quanto podemos avançar, o quanto é possível construir algo maior do que nós mesmos, a partir de ideias que surgem, onde quer que estejamos, e que, automaticamente, ganham a rede do aplicativo e já começam a amadurecer, ali, naquela “mesa redonda” conectada.

O Estado da Arte tem rendido frutos. Tem sido também um local online de amadurecimento e reflexão, derrubando o mito de que a produção intelectual é isolada e mostrando que a colaboração pode, sim, fomentar a criatividade. Tem sido um oxigênio, em tempos em que nos sufocamos com ideias nunca externadas.

Compartilho um pequeno trecho (abaixo, em amarelo) do professor Marcos Ramon Gomes Ferreira, doutor em Comunicação, pela UNB, citando Clay Shirky e sua obra A Cultura da Participação: criatividade e generosidade no mundo conectado, que pode ser lida, gratuitamente, graças a um processo colaborativo, aqui.

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Nesse sentido, o que a colaboração online permite é uma potencialização de algo que já ocorre no cotidiano das pessoas, permitindo que elas colaborem ainda mais e de forma mais recorrente e consciente. Contudo, apesar do exemplo mencionado, existe outra percepção, bem recorrente no senso comum, sobre o funcionamento do trabalho, especialmente daquele essencialmente intelectual. De acordo com essa visão o trabalho científico assim como o trabalho artístico envolvem apenas tarefas solitárias, onde prevalece unicamente a genialidade do indivíduo. Esse conceito de gênio, em seu aspecto mais romântico, considerando os cientistas e artistas como pessoas predestinadas a verem o mundo de uma maneira que ninguém mais vê, é ainda disseminado no imaginário popular. De acordo com Shirky, podemos ver os rastros da colaboração em tudo que quisermos:

Michelangelo colocou assistentes para pintar parte do teto da capela Sistina. Thomas Edison, que registrou mais de mil patentes em seu nome, administrava uma equipe de cerca de vinte pessoas. Até a escrita de um livro, um empreendimento notoriamente solitário, envolve o trabalho de preparadores de originais, editores e designers (...) (SHIRKY, 2012, p.19).

Esses indícios de que a colaboração está por toda parte se contrapõem ao modelo que mencionamos anteriormente, do trabalho solitário e isolado na produção de conhecimento. E se por tanto tempo mantivemos essa mesma compreensão das coisas, o que estaria mudando agora, para que passássemos a valorizar o trabalho intelectual coletivo?

E você, a quantas mãos faz arte?

4 comentários:

  1. Pois é, se formos analisar cada uma de nossas ações, produções, sempre encontraremos os vínculos com o Outro, aqueles que nos provocam, nos tensionam, nos ajudam. A marca desses outros está em toda nossa vida, por isso como manter a ideia do individualismo?

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    1. Perfeito, prof. O "outro" é, muitas vezes, um espelho de nós mesmos. S2

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  2. Beth, lendo seu escrito me reportei imediatamente aos Saltimbancos:
    "Todos juntos somos fortes
    Somos flecha e somos arco
    Todos nós no mesmo barco
    Não há nada pra temer
    - Ao meu lado há um amigo
    Que é preciso proteger
    Todos juntos somos fortes
    Não há nada pra temer"
    A partilha, especialmente do conhecimento, nos faz melhores e maiores. Conte comigo nesse trabalho a muitas mãos. Ele dá sempre muitos frutos!

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    1. Que lindo! Nem sei quem é, mas já adorei o comentário.
      (Desconfio da autoria...rs)
      S2

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