domingo, 17 de março de 2019

"O pop não poupa ninguém!"

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Um ponto importante da cultura de massas é a ponte que esta constrói entre o popular e o erudito. Como assim? A penetração massiva reduz o abismo entre o intocável, reservado às elites, e o popular, avassalador, o produto da classe baixa, experimentado pelos 99% menos abastados. A cultura de massas traz uma nova matemática a essa relação.


Debaixo de forte crítica, pelo lado erudita da história, a Orquestra Sinfônica da Bahia - OSBA, desde a assunção do maestro Carlos Prazeres, tem adotado essa postura de “ponte”. Projetos audaciosos, como levar o grupo Olodum à sala principal do Teatro Castro Alves, ou atrever-se a deixar a indumentária sóbria de lado, assumindo as vestimentas dos personagens e adentrando o mundo da fantasia das trilhas sonoras de grandes nomes do cinema mundial, em seu lindo projeto, Cine Concerto, fazem parte de uma nova ideologia, adotada pela OSBA, de “popularizar a música clássica” e abrir as portas para que pessoas estranhas ao erudito o experimentem, mesmo que pela porta de entrada popular. Os concertos, outrora com público que estava longe de lotar os cerca de 1500 lugares da sala do TCA, passaram a demandar duas, três, até mesmo quatro apresentações extras. Todas esgotadas. O popular estava lá! Na casa do erudito e fazendo a festa! Eu, fã incondicional da OSBA, passei a encontrar amigos que nunca imaginaria estarem ali. Maravilha! Eles também descobriram o quão maravilhoso é isso aqui! E a música cumpriu seu papel, mais uma vez.

Mozart, inclusive, já derrubava a falácia de que era necessário preparo especial para ouvir música clássica ou o pertencimento a determinada classe, visto que suas composições alcançavam a realeza e a massa - indico um filme interessante sobre a vida do músico, aqui.
Nessa interconexão, constata-se a dificuldade, provocada por Santaella, em diferenciar o que se mantém clássico e o que já se rendeu às seduções populares. Ora, examinemos outras duas situações:
O cientista Stephen Hawking ao lado do ator Jim Parson em gravação de The Big Bang Theory - Imagens: Divulgação/CBS
Quantos, hoje, conhecem o importante físico Stephen Hawking? Na verdade, a pergunta correta é: quantos ficaram conhecendo o físico através de outras provocações, que não a sua obra? Eu ajudo: acaso todos os que, atualmente, não são mais estranhos a esse nome, o eram antes da série de TV The Big Bang Theory? Ou, mais recentemente, o eram antes do filme A Teoria de Tudo? Você não precisa nem se cobrar por entender a teoria dos buracos negros (o próprio autor já revisou inúmeras vezes suas teorias), mas, certamente, já sabe que o cientista tem uma memorável contribuição nesse estudo, que iniciou-se séculos atrás, e é possível que tenha despertado a vontade de ler um de seus livros ou conhecer mais sobre ele, se não pelo interesse científico, pela curiosidade que sua condição física desperta.
Ainda na ciência, Alan Turing poderia ser apenas mais um nome estranho, antes do sucesso do cinema O Jogo da Imitação, que se propôs (reservadas todas as licenças poéticas) a contar como o brilhante matemático britânico se tornou um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial, aplicando seus conhecimentos lógico-matemáticos na decodificação de códigos alemães e contribuindo para o fim da guerra. Hoje, Turing não é mais um nome restrito à Academia ou às rodas de intelectuais de exatas. Seu nome está nas piadas, em trocadilhos que tratam de quebra de códigos e, especialmente, em debates e discussões que abordam o caráter nocivo que o preconceito contra LGBTs carrega.

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Quanto a mim, prefiro o TCA cheio do que um espetáculo frio, direcionado a poltronas vazias, inanimadas, inalcançadas pelo poder da música. Prefiro Hawking e Turin sentados nas mesas de bar, nas conversas informais, do que presos às páginas fechadas na biblioteca. Se a cultura das mídias for capaz de manter essas articulações fluidas, já me parece muito válido! A única preocupação reside em não tornar a condição física de Hawking e a homossexualidade de Turim superiores às suas contribuições para a ciência e o mundo.
Nisso, "o pop não poupa ninguém", devamos confessar.

4 comentários:

  1. No filme Amadeus fica claro como se fazia música na época, com floreios simplórios para não exigir demais da mente dos nobres, enquanto Mozart não conseguia conter seu talento em construções longas e complexas, assim como nas obras populares que expressavam sua personalidade comum e humilde. Um gênio.

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  2. A cultura digital, mais ainda, oportuniza aquilo que vem sendo denominado na academia de "popularização da ciência", ou seja, a difusão da produção para a sociedade. Os diversos ambientes online, com sua diversidade de linguagens, possibilita que hoje tanto a ciência como a cultura (toda ela) possa estar ao alcance de todos.

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    1. Bem lembrado. Particularmente, gosto dessa popularização...rsrs.
      Parafraseando Cortella: conhecimento dentro de "caixas" não é conhecimento.

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