segunda-feira, 25 de março de 2019

Cidadão “Quem”?


O ano era 2011. Eu, estreante no Facebook, adesão à qual resisti ~ quase ~ bravamente, navegava pela time line, quando, em postagem de um amigo, vi algo que me chamou à atenção: era um chamado a uma “marcha”, que se dizia “contra a corrupção”. Interessada por pautas políticas desde quando ainda nem podia participar delas, cliquei, para maiores informações. A realização era creditada ao Dia do Basta à Corrupção, movimento que se denominava como “nacional, pacífico e apartidário”. Vi que fora realizado em várias cidades e Salvador estava entre elas. Aquilo me interessou... Porém, essa minha resistência em aderir ao Facebook teve um preço: minha conta foi aberta em maio de 2011 e a marcha havia sido em 21 de abril. Que pena! Mas fui lendo e, para minha surpresa, o movimento contava com datas fixas do evento, sempre em abril, setembro e dezembro.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Marcha convocada em 2011, contra o projeto da Usina de Belo Monte.
Ao ler mais sobre o Dia do Basta, através de seu website, blog e página do próprio Facebook, inexplicavelmente, me vi parte daquilo, ao conhecer as principais reivindicações do movimento, que eram, especialmente: Voto aberto Parlamentar, Corrupção para Crime Hediondo, Fim do Foro Privilegiado e 10% do PIB para a Educação. Senti já estando em um dos eventos, colaborando com o movimento e, finalmente, tendo uma esperança de uma participação política fora do status quo. Passei a fazer parte da comunidade do Facebook, participar das discussões, arriscar sugestões e conhecer o processo de articulação do movimento que, pasmem, não tinha um líder. Claro que, como todo grupo, há pessoas que cuidam dos trâmites, que participam mais ativamente e auxiliam no processo de “fazer acontecer”. Esses eram denominados “coordenadores”, que se dividiam em local e nacional. Contudo, essa coordenação não agia nem permitia ser taxada como líder ou realizador. Todas as decisões eram postas na “mesa” do Facebook e, a partir de votos e sugestões, eram postas em prática. Eu me sentia na democracia ateniense, com milhares de ágoras em cada casa, clicando para confirmarem seus votos. O mais engraçado? O Facebook ainda nem contava com a opção de enquete, o que tornava o processo de apuração um “deus nos acuda”... hahahaha.

07/09/2012 - Eu, minha amiga e minha mãe.
Em 2012, consegui participar de uma das marchas, levando junto minha mãe e uma amiga. Parecia que eu sempre estive ali. Decorei todas as palavras de ordem, percorri todo o trajeto com o peito cheio de esperanças e, ao final, fiquei para a tradicional “reunião pós ato”. Ali, conheci, pessoalmente, os principais articuladores e suas ideologias. Pessoas simples, na maioria estudantes e/ou professores, que em comum tinham: o descontentamento político, vontade de mudança e inclinação à abnegação. Aquilo era o Dia do Basta. Presente em todos os estados do país, defendendo pautas que contemplavam, especialmente, educação, saúde e transparência e que se articulava através das redes sociais, contando com 3 marchas fixas anuais e atos para pautas urgentes, que ocorriam em vias movimentadas da cidade, mas sempre em feriados, para evitar transtornos aos trabalhadores, no trânsito. E aquela era a minha comunidade.

Passei a participar de todas as reuniões presenciais (com data e horário acordados via enquete) que se fizessem necessárias para a complementação da articulação realizada nas redes, apesar de 90% serem pelas plataformas online. Reuníamos em livrarias, praças, onde fosse viável. Algumas, mais movimentadas, cheias daqueles rostos já conhecidos pela foto do perfil do Facebook; outras, nem tanto, havendo casos com 3 pessoas.  Mas nunca deixaram de ocorrer. Da mesma forma, as marchas nunca foram suspensas por falta de público. Oscilavam das centenas aos casos em que poderíamos contar pouco mais de 10 pessoas, mas sempre estávamos lá. Sempre! Os gritos e palavras de ordem, bem como os cartazes, poderiam estar em menor tamanho, mas nunca deixaram de existir.

A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Emerson Aguiar, Elisabeth Araujo, Marcos Musse, Fabricio Moreira e Bianca Sales
A despedida de Fabricio (ao centro), então coordenador local, em 2013.
Até que, 2013, por um “convite” quase que imposto pelo grupo, assumi a coordenação local. Em uma das reuniões online rotineiras, a pauta era o apoio às manifestações pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo, no valor de 0,20. Aqui, cabe uma contextualização: muitos de nós, inclusive eu, estudante secundarista, à época, esteve presente na Revolta do Buzu (ato que contribuiu para a origem do Movimento Passe Livre), ocorrida em 2003, em Salvador, e que serviu de modelo para várias outras capitais, alcançando uma proporção inimaginável, tanto pela sua importância quanto pelas realizações alcançadas. À época, das 10 exigências do movimento, apenas uma não foi atendida (a revogação do aumento). Todas as demais foram; inclusive, a mais celebrada, que foi a meia-passagem para cursos de pós-graduação, de todos os tipos - vale a conferida nesse documentário.

A imagem pode conter: 8 pessoas
Início das manifestações de 2013.
Como precursores do Movimento Passe Livre, não podíamos negar apoio às pautas de São Paulo, especialmente porque nós, só nós, sabíamos que a reivindicação não era pelos “vinte centavos”. Aqui, fica clara a diferença entre fazer parte de uma comunidade e não ter ideia do que ela representa. Só quem pulsava na mesma vibração sabia que aqueles 0,20 eram a simbologia de algo maior, mais profundo; de uma ferida muito mais grave, da qual nunca nos curamos. No entanto, era difícil explicar às incessantes chamadas feitas, com maior frequência, pela Rede Globo, que não éramos “vândalos protestando por vinte centavos”. Éramos, inicialmente, estudantes e professores, mas, depois, pais, mães, trabalhadores, jovens, velhos, brancos, negros passando uma mensagem de que mobilidade era apenas uma das mazelas das quais sofríamos, porque o conjunto que nos movia consistia numa imensidão de pontos negligenciados pelo poder público. Infelizmente, durante muito tempo do movimento que durou, ativamente, cerca de 2 meses, foi assim que o Cidadão Kane tupiniquim imprimiu a imagem dos manifestantes - veja um exemplo, aqui, ao afirmarem ter havido invasão ao bloqueio policial.

Manifestantes correm da fumaça de bombas de gás lacrimogêneo em Salvador
Salvador - junho de 2013.
Felizmente, já podíamos contar com os “brotos” da imprensa independente, que se manifestava através das telas de celulares dos próprios manifestantes e, institucionalmente, se materializava em veículos como o Mídia Ninja que, a partir de colaboradores em todo o país, ajudou a dar notoriedade aos registros da real postura dos manifestantes e, especialmente, da truculência policial, que, em Salvador, teve seu ápice no dia 20 de junho, o fatídico dia em que nos atrevemos a desafiar a instituição futebolística.

Durante um dos jogos da Copa das Confederações, rumamos em direção à Fonte Nova. Nesse dia, percebemos a quem a polícia serve e o grau de importância que tem famílias morrendo em decorrência da acentuada corrupção nacional, no “país do futebol”. Do lado de cá, não havia armas, nem bombas. Lá? Emboscada. Ouvi de um policial, em um momento de aproximação: “eu apoio a luta de vocês, mas a maioria, não; a cavalaria está escondida, se afastem; é um conselho que dou a vocês”. Nós não ouvimos. Em segundos, bombas de gás, de efeito moral, vindas de todos os lados: do alto, de trás das árvores; um abate! Foi um dos piores dias das nossas vidas. Nessas horas, você se pergunta se não seria mais feliz estando lá dentro, torcendo na arquibancada - aqui, tem 40 segundos da pior tarde de junho.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Marcha do Dia do Basta - Belo Horizonte - 2012.
A resposta? Não, não seríamos! Porque é assim que exercemos a nossa cidadania. É dessa comunidade que fazemos parte. Assim que representamos e nos sentimos representados. Estamos em tudo e não pertencemos a nada, ao mesmo tempo. Somos uma ideia, um ideal, uma ideologia. O fato é que, o que ganhou o nome de Jornadas de Junho, para nós, cidadãos dessa pólis que se materializa atrás de cada tela de computador, consiste em muitos “junhos” e não começou, muito menos acabou, em 2013. Mesmo tendo sido usado como trampolim para vários grupos oportunistas, tais como Movimento Brasil Livre, Nas Ruas e Vem pra Rua, o “junho de 2013” tem um lugar muito especial no desenvolvimento da minha cidadania digital. Atualmente, faço parte da coordenação nacional do Dia do Basta, junto com a Laura Xavier e o Erik Chendo, fundadores do movimento; e, mesmo com demandas que me afastam da atuação mais presente, só tenho orgulho por ser uma espécie de “bit”, um grãozinho dessa grande comunidade de net-ativistas que, através das redes, busca melhorar o mundo.

O “gigante” não acordou, porque nunca estivemos dormindo.

E você, qual a sua cidadania?

> Veja uma chocante galeria de fotos, de junho de 2013, aqui.

6 comentários:

  1. Uma bela trajetória ativista, nas redes e nas ruas! Lembro da cobertura da mídia aos movimentos de 2013: o desespero por encontrar "os líderes do movimento", numa clara expressão de que não entendiam ou era de interesse "não entender" o que estava acontecendo. Assim, podiam rotular os participantes como "vândalos, arruaceiros" e não como cidadãos reivindicando direitos. Da mesma forma atuava o Estado, pela mão armada da polícia, tratando a todos como marginais, negando o direito à conquista de direitos.

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    1. Bem lembrado, prof! Rotular para desacreditar; desacreditar para calar.

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  2. A internet e suas redes sociais podem ser utilizadas para um bem público e esse seu post deixa isso claro, a internet é o que fizermos dela e refletirá aquilo que temos de anseios.

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  3. Uma bela trajetória! É bom saber e ler que as nossas lutas são válidas. Sigamos juntos, mesmo nesse momento nebuloso, tendo consciência pelo que vale a pena seguir lutando.

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    1. É daí que tiramos nosso fôlego diário, não é? Sigamos e lutemos!!! Força pra nós!!

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