segunda-feira, 8 de abril de 2019

"Tenho medo da TV"


A maioria dos brasileiros que, hoje, tem cerca de 20 anos – ou menos – lembra-se dos intermináveis 4 dias que durou o sequestro de Eloá Cristina, adolescente de 15 anos, mantida refém pelo ex-namorado, de 22 anos, no que ficou conhecido como o “mais longo sequestro em cárcere privado járegistrado pela polícia do estado brasileiro de São Paulo, que adquiriu granderepercussão nacional e internacional”.

Eloá estava em sua casa, na cidade de Santo André, estudando, com amigos de classe, quando o ex-namorado, inconformado com o término do relacionamento invadiu a residência e, após liberar dois amigos de Eloá, manteve a ex-namorada e sua amiga, Nayara, reféns, com ameaças de morte, durante dias, em uma interminável agonia, para familiares, amigos e, como não, telespectadores.

Encaixo-me no grupo de telespectadores que, à época, estava focado em todos os detalhes do caso, durante a sua duração. Como muitos, tive a esperança de que a menina sairia viva, assim como a amiga, e que o criminoso seria conduzido a pagar pelos seus atos. Mas confesso que, em alguns momentos, pensava que o desfecho seria tal qual o do sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro, que também acompanhei detalhadamente, pela TV, e, devido a uma ação desastrosa da polícia, culminou na morte da professora Geísa Gonçalves.

Enquanto acompanhava esses dois episódios, em nenhum momento refleti sobre o papel da mídia em ambas as situações. Muito menos sobre “narrativas midiáticas”. Apesar de me considerar uma pessoa crítica quanto ao poderio midiático, isso não me passou pela cabeça, enquanto consumia o produto gerado pelo “jornalismo sangrento”, que dava inúmeras tônicas ao mesmo caso, a depender do seu alvo, potencial de audiência, corpo jornalístico ou, mesmo, viés ideológico. Pois bem, eis que, ao ler o que Leandro Lage traz, em seu capítulo intitulado “Notas sobre narrativa e acontecimento jornalístico” (uma ideia do que o autor se refere pode ser lida aqui), o que vem à mente? O caso Eloá!!

Há algumas semanas, estava assistindo a um documentário divulgado no aniversário de dez anos da morte da adolescente (13/10/2018). Fui levada a relembrar o caso de Eloá, devido a uma discussão acerca da narrativa com a qual foi conduzido o caso do massacre na escola de Suzano-SP. Em comum, os dois casos tinham os diversos posicionamentos adotados pela mídia brasileira e, mais ainda, a postura idêntica que os veículos adotaram quanto à entronização dos autores – um, postumamente; o outro, em vida.

O algoz de Eloá foi entronizado em vida, por grande parte da mídia brasileira, que, ao trazer uma narrativa que garantisse picos de audiência, deixou em segundo plano o futuro da adolescente e sua amiga. O caso de Santo André teve uma série de acontecimentos desastrosos, sobretudo, os institucionais:

Fonte: http://revistaepoca.globo.com
1.      Despreparo policial, ao permitir a reentrada da amiga, Nayara, após a mesma ter sido liberada pelo sequestrador, colocando, claramente, a vida da refém – que chegou a ser baleada, no rosto – em risco;
2.      Atuação governamental pífia, em um episódio que se arrastou por inacreditáveis 4 dias;
3.      Mais importante, a espetacularização midiática, cuja preocupação era a cobertura, em tempo real, do caso, com disputas entre qual emissora conseguiria a primeira entrevista exclusiva, o primeiro clique do sequestrador, o melhor ângulo do sangue derramado.

Ao relembrar o caso, é possível identificar, claramente, que cada emissora de televisão, cada revista, jornal adotou uma postura diferente, ao narrar o caso. Alguns, como a Revista Época, claramente atribuíam, apenas, à polícia e ao sequestrador a responsabilidade pelo desfecho do caso. A apresentadora Sônia Abrão e sua equipe foram um pouco mais longe, em sua irresponsabilidade “jornalística”: entrevistaram, ao vivo, o autor e a vítima, por telefone, durante o sequestro. Sim, passados 2 dias do início do episódio, a apresentadora interferiu no caso – sob autorização policial, aliás – e exibiu em seu programa uma exclusiva entrevista. Já o apresentador José Luiz Datena, da emissora concorrente, se referia ao sequestrador como um “rapaz apaixonado e desiludido”, ao vivo, durante o seu programa.

Hoje, dez anos depois, ao refletir sobre narrativas midiáticas, sobre o que é um acontecimento, sobre o papel do jornalismo e sobre o nosso papel, enquanto telespectadores – por vezes, de um circo de horrores –, penso em como estaria a Eloá, caso tivesse sobrevivido? Como seria a vida dela, aos 25 anos, se seu maior sofrimento tivesse recebido outra narrativa?

Quantas Eloás, quantas Geísas serão necessárias para que repensemos a postura jornalística brasileira? É preciso, de fato, que a palavra “acontecimento” continue tendo conotação superlativa?

6 comentários:

  1. Pois é, temos tantos casos como esse como exemplo da ação irresponsável da mídia de massa brasileira, mas não paramos para analisar, fazer a crítica, organizarmos um movimento que exija uma postura mais ética e menos sensacionalista desses meios. Ao contrário, nos submetemos às suas narrativas e acreditamos que essa é a forma "certa" de fazer jornalismo, deixamos que balizem nossos próprios discursos e nos omitimos em sala de aula, ao não formar os jovens para uma visão crítica dessas narrativas que estão dentro de nossas casas, cotidianamente. É necessário acordar!

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    1. Precisamos, muito, sair da omissão, prof. Perfeito! Essas trocas têm sido fundamentais na colaboração com esse processo. ;)

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  2. Oi Elisabeth!
    É assustador como a mídia, principalmente a televisiva apenas preocupa-se em espetacularizar o acontecimento sem pensar nos efeitos que essa ação pode ocasionar. Alguns programas de TV aqui em Salvador apelam para esse sensacionalismo, principalmente no que se refere a criminalidade e possuem altos índices de audiência.Diante disso, acho importante quando destaca qual nosso papel perante a espetacularização da mídia!
    Abs!

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    1. Iris, há quase 10 anos, optei por não mais ver TV. Sabe, foi uma das melhores decisões que tive. A mídia, em grande parte, tem se aproveitado desse nosso "apetite" pela desgraça. Precisamos de forças para prosseguir na luta!
      Grande abraço!!

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  3. Se espremer o jornal só sai sangue, é a nossa sociedade do espetáculo ainda apegada as arenas. O mai recente é a visualização do "vem tranquilo", um video de briga de rua. Violencia gera violencia, aqui se vive ela e se consome ela também. Precisamos repensar nossa sociedade com uma visão mais real das suas nuances. Educação porquê jornalismo de massa já está vendido.

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    1. Conscientização e educação são os caminhos para repensarmos nosso papel, diante disso tudo.

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